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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Colhei no ar a psicologia abstrata dos antigos empreendimentos, o espírito desolado que chora talvez na noite murmurosa dos salgueiros, no segredo dos pinhais dolentes, espectros de luar, que falam de Yorick na sombra e vão sobre as alvas campas; inspirai, depois, o sopro dessa vida às articulações crepitantes de um manequim de fragilidades; carregai os heroísmos todos das lendas mortas ao lombo do Rocinante, magro como a abstinência, fraco como os inocentes; dai-lhes por arma o lanção impossível, por glorioso arrebique o elmo rútilo de Mambrino; animai essa criação com a investidura galvânica do gênio de Cervantes. Agitai a virtude num cenário de anacronismo e desastramento; ao lado, como uma tinta de realce: a figura obesa de Sancho, chamando pela barriga, em contraposição à idealidade esgalgada do enamorado senhor e amo. Pronto o poema moderno das vinditas e dos desagravos, a epopéia atual da solidariedade.

Hércules é o ideal forte, animado pela exuberância audaz da adolescência virgem, do espírito embriagado de sonho. Hércules vence sempre, com a onipotência positiva do braço. Cristo é uma concepção hesitante já, como salteada de suspeitas filosóficas. Cristo transige com a ordem das cousas opressiva, e iníqua; fantasia de valor a fraqueza, denominando-a paciência, a derrota faz vezes de triunfo com o rótulo de sacrifício, humilhação chama-se humildade, impotência finge de superioridade; o seu Reino não é deste mundo; os últimos serão os primeiros. D. Quixote significa, em derradeira apuração, a crítica da bondade cristã e da bondade hercúlea. Cervantes fez obra de maldição, contando talvez escrever um livro desopilante de galhofa.

No âmago do caráter nenhuma divergência entre os protagonistas do romance histórico da Moralidade.

Quixote quer a Redenção dos homens como o Nazareno, como Hércules; por ela combate, por ela morre. Quer a consagração da mulher, estímulo nobre do seu brio; seria capaz de salvar Hesione, como o herói grego, se encontrasse O monstro da Frígia, e proporia a santificação do matrimônio, como Cristo, se não achasse a cousa feita no seu século. Tal qual o paladino mitológico, ele declara guerra aos gigantes; tal qual Cristo, prega e exalta as doutrinas da perfeição. Estote vos perfecti, reza o Evangelho; Dichosa edad, suspira Quixote, y siglos dichosos aquellos a quien los antiguos pusieran nombre de dorados... entonces los que en ella vivian ignoraban estas dos palabras de tinyo e mio.

As próprias aventuras da vida se assemelham. Há o prestigio feminino de Onfale, de Madalena; há o madrigal castíssimo da Sin par Dulcinéa. Se Hércules tem as ovações da Traquina, se Cristo tem as palmas da Páscoa de Jerusalém, Quixote tem a entrada em Barcelona. Um tem o retiro contemplativo da Lídia, outro os quarenta dias do deserto; Quixote tem a penitência platônica da Sierra Morena. Baixam aos infernos Hércules e Jesus Cristo; Quixote afronta a cueva de Montesinos.

O mesmo amor os absorve, do mesmo amor são mártires. No critério moral, o mesmo erro os vitima. Pecam por anacronismo os três. Ao anacronismo retrospectivo de D. Quixote, que perde a noção de atualidade para entregar-se à imaginação das medievas cavalarias, corresponde o anacronismo prospectivo dos cavaleiros andantes da Grécia e da Judéia, desvairados até ao extremo pelo idealismo da corrigenda e do aperfeiçoamento. Vai-lhes o coração através da existência real, como um fantasma, braços abertos, olhos no céu, sorrindo aos astros...

O anacronismo prospectivo é sério, respeita a gravidade dos heróis, deixa-lhes a pose de tragédia, aprumada e veneranda; o retrospectivo entrega o herói às cambalhotas e aos desastres da loucura patente.

O elemento real do humorismo de Cervantes é a extemporaneidade da segunda espécie. O seu personagem contempla o sétimo céu dos antigos sonhadores. O êxtase de Quixote anda de costas. Daí os trambolhões e a triste figura.

Não se trata de um anacronismo superficial de fardamento. Como encenação de ridículo isto já é uma utilidade eficaz. Cristo, por exemplo, que nos entrasse agora pela cidade em figurino de cartilha a evangelizar as massas de cima do burrico de Betphage, de dentro de uma amostra das alfaiatarias da Galiléia. No batalhador manchego a caricatura é mais odiosa e mais profunda. O escritor o concebe em alma e vestuário na idade de ouro do cristianismo, ao tempo em que a espada era a força, mas o punho da espada era a cruz. E toda a memória sagrada daquelas eras vive pungente nos traços carregados do grotesco; e com as vaias de riso que envolvem o herói, roda de mistura todo aquele sonho sublime de virtude ultrajado pela nossa compaixão.

O livro é cruel. Não foi poupado ao pobre louco nem o suplício final da desilusão: fitar do leito de morte a vacuidade da sua existência de nulos combates e esforços vãos. Ele viu no terrível momento, que vivera enganado e triunfara sonâmbulo; que as palmas de Barcelona valiam antes o convulso alarido da populaça do Ecce Homo. Só então morreu, sob as lágrimas da sobrinha, sob o olhar sereno do cura, para reviver em espírito, da vitalidade invencível do Ideal, na pátria azul altíssima dos que sonham.

D. Quixote é o símbolo moderno do Bem. Todos os ideais vão passando. D. Quixote fica. Nesta idade de pessimismo e de ironia, vive; porque D. Quixote é o Ideal-sarcasmo. Sua filosofia ri, como se nascesse de Voltaire.

(continua...)

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