Por Adolfo Caminha (1896)
— O brinde, seja ele a quem for, é uma das muitas ridicularias da civilização... Não sei como qualificar o indivíduo que interrompe a boa digestão de uma mesa, de uma sociedade, para, de taça em punho, levantar um brinde às virtudes de outro, não sei.
Evaristo esquecia-se do batizado da Julinha em que o diretor do Banco LusoBrasileiro fizera diversos brindes entre os quais um a seu amigo Furtado, que por sua vez brindara à sereníssima herdeira do trono.
Adelaide fez-lhe sinal piscando o olho, mas o bacharel não percebeu e concluiu dizendo catedraticamente que o brinde "era uma prova de ignorância e de tacanhez intelectual",
Todos estranharam aquela franqueza perante o visconde de Santa Quitéria, na presença do respeitável amigo de Suas Majestades que ninguém ousava contrariar nas menores coisas.
Furtado disfarçou o mau efeito das palavras de Evaristo, dizendo alegremente que, para provar ignorância e tacanhez intelectual, ia brindar à Inspetoria do Jardim Botânico e mais à Flora brasileira.
— Muito bem, muito bem, meu amigo — fez o visconde erguendo o copo. — O esposo da Sra. D. Adelaide estava bem para niilista, ao que vejo. Atira-lhe com um brinde à Flora.
As palavras do visconde mereceram aplauso das duas senhoras. Adelaide e Branca saudaram-no entusiasticamente.
— Bravo, senhor visconde, bravo - exclamaram as duas a um tempo.
E Evaristo, esmagado pela maioria, bebeu também à saúde do Jardim Botânico, "uma vez que o amigo Furtado e o ilustre senhor visconde faziam questão".
Beberam, e o champanha, caindo no estômago farto dos homens e das senhoras, trouxe-lhes ainda mais alegria e expansão.
A própria Adelaide tinha agora um brilho comprometedor nos olhos, uma viveza fora do natural, e falava também, muito risonha, inclinando a cabeça no ombro de Branca. A mulher do secretário lamentou a ausência da viúva Tourinho; faltava uma senhora para completar três casais, e a viúva sabia se divertir como gente, era uma bela companhia.
— E o desembargador? por que não convidaram o desembargador Lousada? — disse o marido de Adelaide, devorando um cacho de uvas.
— Oh, Evaristo, você ainda come? — acudiu a jovem esposa do bacharel, cujas faces, ordinariamente pálidas, tinham agora um ruborzinho quente.
Furtado perguntou, então, se ainda queriam tomar alguma coisa, e como todos recusassem, propôs novo passeio através das árvores. Ninguém discordou da idéia. Evaristo, porém, falou ao ouvido do secretário, que lhe respondeu baixinho, acrescentando alto, para as senhoras e o visconde:
— Podemos ir, podemos ir; o Evaristo irá depois...
— Como, irá depois? — perguntou Adelaide com um arzinho de riso. — Vão andando, que eu já os encontro — disse o bacharel misteriosamente. — É questão de minutos...
— Espera por ele, oh Raul - ordenou Furtado.
E, oferecendo o braço a Adelaide, à imitação do visconde, que já se apoderara de D. Branca, saiu do caramanchão.
O número de passeantes aumentava com o correr da tarde. O jardim ia-se enchendo de famílias e rapazes que percorriam as avenidas de chapéu-de-sol aberto à luz das duas horas. Os sons da música chegavam aos ouvidos distintamente na aragem acariciadora que soprava. Como que esmoreciam os tons vivos da paisagem, num desmaio lento; o sol esfriava um pouco e o azul tinha agora uma cor poeirada de cinza, como um espelho que de repente se ofuscasse a um bafejo úmido. Todas as coisas iam mudando de aspecto à proporção que se aproximava o fim da tarde. Os tons vivos iam-se traduzindo em tons melancólicos; a natureza, cansada de luz, queimada pelos ardores do sol, numa indolência outonal, volvia-se para o crepúsculo, adivinhava a noite. O repuxo central do Jardim entoava a sua ladainha num ritmo blandicioso de cascata longínqua.
Furtado queria se abrir com Adelaide agora que estavam sós, dizer-lhe tudo quanto sentia por ela desde que a vira pela primeira vez, contar-lhe as suas insônias, o muito que a estimava, a extraordinária simpatia que ela lhe inspirava; mas uma timidez amordaçava-o, uma timidez de colegial, e, no fundo, um vago sentimento de compaixão pelo amigo, pelo Evaristo, seu velho contemporâneo do Liceu, cujas qualidades, ontem como hoje, eram dignas do respeito que se deve a um chefe de família honesto e exemplar. Além disso, temia qualquer movimento de indignação por parte de Adelaide; ela talvez o repelisse, dando escândalo num lugar público, desabafando ali mesmo em face do visconde e de sua mulher, inutilizando-
o. Mas logo esses temores desapareciam e voltava-lhe o ânimo, a coragem de homem useiro e vezeiro nas pugnas do amor fácil.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.