Por Adolfo Caminha (1895)
E o negro ficou pensando no grumete, sentado à mesa, de crista caída, esgravatando maquinalmente a unha com um fósforo — “Aquilo” não ia bem... Precisava tomar uma resolução: abandonar o Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranqüilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...
E, tomando o boné, com uma expressão de aborrecimento:
— Ora, adeus! havia de se resolver hoje ou amanhã;
Bateu a porta, deu volta à chave, e saiu por ali fora, palpando os bolsos. com desespero.
D. Carolina estava para dentro e lá ficou estendendo uma roupinha no coradouro.
Faiscavam as pedras da rua sob a luz perpendicular do meio-dia. Na taverna da esquina, ali perto, havia uma aglomeração de gente e cada transeunte que passava era mais uma curioso, um basbaque. Os moradores debruçavam-se às janelas, esticando o pescoço com uma interrogação no olhar. Um oficial de bombeiros passou correndo para o lugar do “acontecimento”. Gente punha-se em pé nos bondes. O padeiro, em mangas de camisa, chegou à porta, com um lápis atrás da orelha, arrastando os chinelos.
Bom-Crioulo supôs logo que fosse algum “rolo” e precipitou-se, abrindo caminho. Era um sujeito acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensangüentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas. Caíra de repente, ao sair da venda.
— Tinha bebido muita cachaça, dizia penalizado o taverneiro. Se soubesse, não teria vendido...
Dois guardas tentaram erguer o homem pelo torso, mas fraquejaram. — Passa fora, o animal pesava que nem chumbo!
— Espera, espera! saltou Bom-Crioulo. Vocês também não prestam pra nada...
O povo recuou, admirado, e viu o negro suspender o homem com as duas mãos e levá-lo ao ombro à Santa Casa de Misericórdia, sem grande esforço, como se pegasse uma criança.
Fez-lhe pena ver aquele pobre homem caído ali assim, no meio da rua, cercado de gente, estrebuchando como um animal sem dono. Aquilo apertou-lhe o coração, fê-lo estremecer, comoveu-o... Talvez fosse algum pai de família, coitado, algum infeliz... Um horror, a tal gota! já noutra ocasião salvara uma mulher bêbeda que ia sendo pisada por um bonde.
E o português da venda, o padeiro, os guardas, um doutor que passava casualmente, o dono do açougue, todos gabavam o pulso do negro.
“— Sim senhor, tinha força para desancar um burro! — Essa gente do mar é uma gente perigosa! — Dois guardas não puderam com o homem, no entanto só o negro fez tudo! — A marinha sempre é a marinha...”
Um soldado, que estava presente, ergueu o seu protesto:
— Não senhor, não era tanto assim. Cá e lá más fadas há... No exército também se encontravam homens de pulso, assim como na armada havia gente fraca, rapazinhos de papelão...
Ninguém disse mais uma palavra, e pouco a pouco o ajuntamento reduziu-se a duas ou três pessoas que ficaram por ali conversando.
Bom-Crioulo voltou imediatamente no seu passo largo, sacudindo os braços, o boné derreado como de costume, a face radiante. — Na verdade o homem pesava seu bocadinho, mas era uma vergonha dois guardas não poderem com ele. Olhe que eram dois guardas!
E, dirigindo-se ao vendeiro:
— Uma terça, faz favor...
O português, muito amável, sem despregar os olhos do marinheiro, encheu a medida. — Sim, era uma vergonha para o Brasil, murmurou sorrindo. Em Portugal...
Bom-Crioulo tossiu, escarrou, e escorropichando o copo: — Puah!... fez com repugnância. — Arre, diabo, que isto é mesmo que beber fogo!
Desatou a ponta do lenço, onde costumava trazer o cobre — um triste lenço enxovalhado, com desenhos na margem.
— São os últimos vinténs; resto do soldinho, do miserável soldinho... Felizmente eu não me aperto enquanto existir uma portuguesa chamada Carolina...
O bodegueiro piscou o olho: — Ahn, ahn!... Como era fino, hein?...
— Que quer, meu amigo, faz-se pela vida...
Tinha a cabeça muito fraca, muito leve: um gole de aguardente. uma dose insignificante de líquido espirituoso, um martelo de vinho punha-lhe os olhos em brasa, desequilibrava-o, subindo logo ao cérebro. E, quando bebia demais, em pândega, lá uma vez ou outra — santo Deus! ninguém podia com ele: redobrava de força, não conhecia os amigos, insultava a humanidade, ameaçando, brandindo o punho fechado, carregando o boné, gingando o corpo — medonho, terrível!
Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar propositalmente. Pouco depois de engolir a cachaça, meio tonto, empinando-se para não demonstrar fraqueza, mas com a vista caliginosa e um azedume na língua, retirou-se da venda sem rumo certo, para os lados do cais do Pharoux. Ia triste, zarolho, vendo casas em duplicata e rodando em torno de sua cabeça, encostando-se à parede, monologando cousas imperceptíveis, transfigurado já.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.