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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

O concerto correu bem, Palmira foi feliz no que cantou acompanhada pelo namorado, creio até nunca lhe ter ouvido cantar com tamanha expressão. Mal deixaram o piano, apontei o rapaz ao meu velho amigo, que começou logo a observá-lo disfarçadamente.

Daí a pouco apresentei-os um ao outro, e não os perdi mais de vista.

César, insinuante como é, ganhou logo a simpatia, e suponho até que a confiança do pretendente de Palmira. Vi-os passear juntos durante longo tempo, sem deixarem nunca de conversar com o mesmo interesse. Depois tomaram uma das janelas da saleta de estudo, e continuaram na palestra, mais à vontade. Eu, do lugar em que estava, podia observá-los. O médico com certeza falava já de coisas concernentes à boa disposição física, porque notei que o outro sacudia com desembaraço as pernas e os braços, empinando soberbo a cabeça e o peito como para dar idéia da sua perfeita compleição muscular.

Não pude deixar de rir, principalmente quando César, lá do fundo de sua janela, me fez sinal com os olhos de que a coisa caminhava bem.

O rapaz parecia com efeito muito bem constituído. Era delgado e forte, rico de espádua; boa estatura, pernas e braços bem proporcionados; bom cabelo, olhos vivos, de azul forte; tez limpa, de um moreno pálido, sadio e fresco; barba vigorosa, bem preta, luzidia e fina; unhas másculas e rijas. E os dentes pareciam-me de primeira ordem.

Já morria de impaciência quando o meu bom César, arranchando-se comigo para tomar chá a um canto da sala de jantar, me veio dar conta da sua missão.

— Creio que temos o homem! — declarou logo, antes de assentar-se ao meu lado. E segredou-me depois: — Mas não dou por enquanto a minha opinião definitiva...

Ah!...

— Ficamos amigos... acrescentou César. Ele, sabe? vai depois de amanhã à minha casa, e, como tem gosto pelos jogos e exercícios de força e faz grande vaidade da sua musculatura, creio que o convencerei de que deve por sistema tomar duchas no meu estabelecimento hidroterápico. Ah! então sim, poderei dar com segurança o meu veredicto!

Aqueles dentes?... Reparou se são verdadeiros?

São. Afianço!

Daí a dias, o meu zeloso ajudante-de-ordens procurava-me para dizer-me radiante:

— Completo sucesso! Auscultei e observei minuciosamente o rapaz. Creio até que o maganão adivinhou, ou compreendeu, qual era a razão particular que me dirigia, porque veio, por bem dizer, ao encontro do meu desejo e prestou-se ao exame, sorrindo, sem esconder a sua vaidade de homem forte, consciente da sua riqueza orgânica!

Estávamos a sós, na biblioteca, lá em casa. Aproximei-me mais do meu velho amigo, com interesse; e ele acrescentou, dando com ambas as mãos duas palmadas simultâneas nas próprias coxas.

— Um rapagão, Olímpia! O que se pode chamar um rapagão! Equilíbrio perfeito entre o sistema nervoso e o sistema muscular! Órgãos em belo estado de pureza! Uma autópsia seria a mais esplêndida vitória para as suas vísceras! Devia deixar-se dissecar, por orgulho!

Então, César!... Fale a sério, meu amigo!

— Não lhe descobri o menor vício no organismo. Os pulmões são os de um ferreiro; o coração funciona como um Patek Philippe; o fígado não parece fígado nacional. Os rins fariam inveja aos de um atleta! Tórax soberbo; bíceps de gladiador! Em minha presença manejou, com a maior facilidade e destreza, halteres de trinta quilos cada um!

Sim?...

— É o que lhe digo! E a conformação geral do corpo, esteticamente falando, é simplesmente maravilhosa! Quando o vi nu, pensei ter defronte dos olhos uma estátua grega. Marte e Apolo fundidos, formando um homem. Que belo conjunto de força e delicadeza anatômica! Nem sei como, com a degeneração da raça latina e com a crescente depravação de costumes, ainda possa haver — no Brasil! Um moço em semelhantes condições físicas! Verdade é que ele é de raça catalã!

Que entusiasmo, meu amigo!

— Entusiasmou-me com efeito, o demônio do rapaz! Nunca vi, na minha clínica, um espécime tão puro! É verdadeiramente um belo animal!

— Acha-o então, César, quanto ao físico... no caso de preencher cabalmente o nosso ideal de... de marido de Palmira?

Oh! Por esse lado não poderíamos desejar melhor!

E, pelo outro! Que tal será ele? Diga-me, achou-o simpático!...

— Ora! Um homem naquelas condições é o orgulho de sua espécie e há de ser fatalmente simpático. O que mais é a simpatia senão o reflexo da bondade? e a bondade é um produto lógico da saúde perfeita e da força, como são a coragem e a alegria. Fiquei gostando dele infinitamente. Ah! se aquele ladrão fosse meu filho?

Ainda bem, meu amigo...

(continua...)

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