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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho - onde todos, já calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de tão alta elegancia que acompanhava o Ega e que nenhum conhecia. E Ega, no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo:

- São rapazes do Turf. É um club novo, antigo Jockey da travessa da Palha. Faz-se lá uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E como vês estão sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se acaso passar por ahi o senhor dos Passos.

Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda. Fôra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil, vestida de vermelho, carregando sensatamente nos rr, mettendo rr em todas as palavras, e perguntando pelo snr. virrsconde... Qual virrsconde? Ella não sabia bem. Erra um virrsconde que encontrrárra no Crrolyseu. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda começa a revelar-se um sêr prodigioso. Fallavam

de politica, do ministerio e do deficit. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o deficit, e que é um bello rapaz... O deficit bello rapaz - immensa gargalhada! D. Adosinda zanga-se, exclama que já fôra com elle a Cintra, que é um perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O deficit empregado no Banco Inglez - gritos, uivos, urros! E não cessou esta gargalhada continua, estrondosa, phrenetica, até ás cinco da manhã em que D. Adosinda fôra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba!

- Com effeito, disse Carlos rindo, é uma orgia grandiosa, lembra Heliogabalo e o Conde d'Orsay...

Então Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na Europa, em qualquer civilisação?

Sempre queria vêr que se passasse uma noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do GrandTreize, ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do Bristol! O que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada. Ora na Europa o homem requintado já não ri, - sorri regeladamente, lividamente. Só nós aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora - a barrigada de riso!

- Que diabo estás tu a olhar?

Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos - onde agora, pela taboleta, parecia existir um pequeno atelier de modista. Então bruscamente os dois amigos recahiram nas recordações do passado. Que estupidas horas Carlos alli arrastára, com a Revista dos Dois

Mundos, na espera vã dos doentes, cheio ainda de fé nas alegrias do trabalho!... E a manhã em que o Ega lá apparecera com a sua esplendida pelliça, preparando-se para transformar, n'um só inverno, todo o velho e rotineiro Portugal!

- Em que tudo ficou!

- Em que tudo ficou! Mas rimos bastante!

Lembras-te d'aquella noite em que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar emfim o divan, movel de serralho?...

Carlos teve uma exclamação de saudade. Pobre marquez! Fôra uma das suas fortes impressões, n'esses ultimos annos – aquella morte do marquez, sabida de repente ao almoço, n'uma banal noticia de jornal!... E através do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a D. Maria da Cunha, coitada, que acabára hydropica; o D. Diogo, casado por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia ao sahir dos cavallinhos...

- E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres ?

- Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao pé de Richmond... Mas está muito avelhado, queixa-se muito do figado. E, desgraçadamente, carrega de mais nos alcools. É uma pena!

Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moço, contou o Ega, tinha agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado.Mas sempre apurado, já um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e

murmurando todas as tardes na Havaneza, com um ar dôce e contente - «isto é um paiz perdido»! Emfim um bom typosinho de lisboeta fino.

- E a besta do Steinbroken?

- Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas!

E esta idéa do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente. Ega imaginava já o bom Steinbroken, têso nos seus altos collarinhos, affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: «Oh,il est très fort, il est excessivement fort!» Ou ainda, a proposito da batalha das Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: «C'est très grave, c'est excessivement grave!» Valia a pena ir á Grecia para vêr!

Subitamente Ega parou:

- Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... Já não é mau!

N'um claro espaço rasgado, onde Carlos deixára o Passeio Publico pacato e frondoso - um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço côr d'assucar na vibração fina da luz de inverno: e os largos globos dos candieiros que o cercavam, batidos do

(continua...)

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