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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecêra, havia quatro annos, quando lá passára um tão alegre inverno nos appartamentos de Carlos. E a surpreza do Ega, a cada nome evocado, era o curto brilho, o fim brusco de toda essa mocidade estouvada. A Lucy Gray, morta. A Conrad, morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada com um fabricante de velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido, desapparecido. Mr. de Menant, esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento do Doubs.

E o rapaz que morava ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E outros ainda, mortos, sumidos, afundados no lodo de Paris!

Pois tudo sommado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa, simples, pacata, corredia, é infinitamente preferivel.

Estavam no Loreto; e Carlos parára, olhando, reentrando na intimidade d'aquelle velho coração da capital. Nada mudára. A mesma sentinella somnolenta rondava em torno á estatua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brazões ecclesiasticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Alliance conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapéo á faia fustigavam as pilecas; tres varinas, de canastra á cabeça, meneavam os quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havaneza, fumavam tambem outros vadios, de sobrecasaca, politicando.

- Isto é horrivel quando se vem de fóra! exclamou Carlos. Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiissima, encardida, mollenga, reles, amarellada, acabrunhada!...

- Todavia Lisboa faz differença, affirmou Ega, muito sério. Oh, faz muita differença! Has de vêr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar uma volta á Avenida.

Foram descendo o Chiado. Do outro tado os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados ás mesmas portas, sujeitos que lá deixára havia dez annos, já assim encostados, já assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com collarinhos á moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou no braço de Carlos:

- Olha quem alli está, á porta do Baltresqui!

Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flôr ao peito, mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente embrutecido d'um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambem os seus dois velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar, refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, achou-se em frente de Carlos, com a mão aberta e um sorriso na bochecha, que se lhe esbrazeára.

- Olá, por cá!... Que grande surpreza!

Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e esquecido.

- É verdade, Damaso... Como vai isso?

- Por aqui, n'esta semsaboria... E então com demora?

- Umas semanas.

- Estás no Ramalhete?

- No Braganza. Mas não te incommodes, eu ando sempre por fóra.

- Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no Continental...

- Ah!... Bem, estimei vêr-te, até sempre! Adeus, rapazes. Tu estás bom, Carlos, estás com boa cara!

- É dos teus olhos, Damaso.

E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admiração, arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca, o chapéo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo supremo do seu querido chic «uma d'essas coisas que só se vêem lá fóra...»

- Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando outra vez do braço de Carlos.

E foi um espanto para Carlos. O quê! O nosso Damaso! Casado!?... Sim, casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava agora os vestidos das mais velhas.

- É bonita?

- Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico, chamado Barroso.

- O quê, o Damaso, coitado...

- Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vês, immensamente ditoso, até tem engordado com a perfidia!

Carlos parára. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um primeiro andar, recobertas como em dia de procissão, de sanefas de pano vermelho onde se entrelaçavam monogrammas. E ia indagar - quando, d'entre um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso: - Se você fôr depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra!

- Quem?

- A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapéo... Vá depressa... O João Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a fazendo estatelar no chão, foi uma scena... Vá depressa, homem!

(continua...)

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