Por Franklin Távora (1878)
Tempos depois Francisco, levando em sua companhia Lourenço, fez nova digressão á casa do compadre.
Eram todos no roçado quebrando milho, que devia ser batido como fora o feijão.
- Sempre chego em ocasião de trabalho, compadre Victorino, disse Francisco.
- É verdade.
- A razão é porque meu compadre Francisco é muito trabalhador, observou Joaquina.
- Adeus, meninas.
- Sua bênção, padrinho, disse Marianinha.
- Boa tarde, seu Francisco, acrescentou Bernardina.
Lourenço deu o andar para onde estava esta ultima, e baixinho lhe perguntou:
- Lembra-se ainda do pedaço de cana? Está zangada comigo?
- Eu não, respondeu ela.
- Eu fiz aquilo somente para meter raiva a Saturnino.
- E você para que é mao, Lourenço?
- E você para que faz tantos agrados a ele?
- E você que tem com isso?
- Bernardina! Bernardina!
É melhor que vá se importar com Marianinha, que é sua noiva e mais dia menos dia virá a ser sua mulher.
O semblante de Lourenço fechou-se subitamente. Mais depressa nuvem escura não cobre a face risonha de estrela gentil e namorada.
- Está bom, disse ele com visível contrariedade. Eu não quero destas graças comigo.
E pois estavam conversando em vozes tão moderadas que ninguém podia ouvir o que diziam. Francisco, a quem não pareceu muito agradável este colóquio, dirigiu-se nos seguintes termos ao filho:
- Ó Lourenço, vai ajudar ali a comadre, que mal pode com aquele braçado de espigas.
Em vez de levar a mal, o rapaz aceitou com as duas mãos o recurso, que se lhe oferecia, e foi prestar os seus serviços á Joaquina, não só tomando sobre se parte da carga que ela trazia, mas quebrando o milho maduro que encontrou em suas proximidades.
O aspecto do roçado era o mesmo que oferece qualquer destas plantações em ocasiões idênticas.
Em um ponto central via-se um montão de espigas secas. Junto delas estava Bernardina sentada sobre umas palhas. Sua obrigação consistia em as ir descascando e prendendo depois, de duas em duas, pelo filete de palha, de propósito deixado em cada uma para facilitar não só o trabalho da contagem senão também o da condução. Depois de assim atadas, atirava-as para outro ponto, do qual tinham de ser levadas para casa.
O milharal, posto que na mór parte ainda de pé, estava quase todo seco. As espigas volviam-se para a terra que alguns pés, dobrados pelos ventos fortes, beijavam com os pendões em sua maior parte despidos das flores de que se compunham.
Quebrando aqui, ali, os frutos, foi-se Francisco metendo pelo roçado a dentro até chegar ao lugar onde estava a filha mais nova de Victorino.
- Venho ajudar-te, Marianinha, disse ele.
A menina tinha sobre os ombros alguns atilhos, de sorte que parte das espigas lhe caiam por cima dos seios e parte se derramava pelas costas.
- Para que tem esse trabalho, meu padrinho? Estamos já acabando.
- Como me acho aqui, quero perguntar-te uma coisa. Tu estás mal com Lourenço?
- Porque vosmecê pergunta isso?
Porque ainda há pouco vi todos falarem com ele, menos tu. Que é que houve entre vocês? Eu não gosto de malquerenças.
A menina parou involuntariamente. Seu braço direito que nesse momento ela tinha alçado para uma espiga, descaiu como se força oculta e desconhecida o fizera gravitar para a terra. Os olhos, vencidos pela mesma influencia, tendo relanceado primeiro para o matuto, cravou-os ela irresistivelmente no chão.
Conhecendo que tocará em uma ferida encoberta, Francisco adiantou-se a diminuir-lhe o vexame.
Eu sei que tu gostavas do Lourenço até bem pouco tempo. Como é que aparece agora esta rixa?
Passado um instante, a rapariguinha respondeu, aceso o rosto em suave rubor:
- Mas ele não gostava de mim.
- Quem foi que te meteu isso na cabeça?
- Era preciso que alguém me dissesse o que eu estava vendo com os olhos?
- Engano teu.
- Não estou enganada, não senhor. Lourenço não se importa comigo.
E tu não queres mais bem a ele? Anda, fala. Eu bem sei que tu gostas do pequeno. Se és capaz, nega.
Tomada da maior confusão, Marianinha não soube o que responder.
- Dize o que te pergunto – insistiu o matuto. Eu guardo segredo. Não tenhas vergonha de mim.
- Eu não sei disso – retorquiu a menina, entre satisfeita e triste.
- Não sabes? Então quem é que há de saber?
A filha de Victorino caio novamente na mudez de há pouco.
- Deixa estar, Marianinha, tornou Francisco.
Lourenço há de casar contigo. Se não for por gosto, há de ser contra a vontade.
- Contra a vontade? Não, assim não – disse ela.
- E porque não há de ser por gosto?
- Eu sei... Ele não me quer bem, não. Se ele quisesse, me tratava de outra moda. Como é então que ele te trata?
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.