Por Bernardo Guimarães (1872)
As brisas, que sopravam frescas, traziam mil perfumes de flores selváticas, e rumorejavam pela encosta, mesclando seu sussurro ao marulho das cachoeiras e à vozeria alegre dos garimpeiros, cujos almocafres e alavancas retiniam no cascalho das grupiaras. Toda a povoação despertava alegre e cheia de vida, como garça que à beira do lago se espaneja aos raios do sol, sacudindo das brancas asas as pérolas matutinas.
Quando Elias despertou, o sol já batia em cheio por ambas as margens do ribeirão. Abriu a janela, e deu com os olhos naquele magnífico e risonho espetáculo, que tão cruel e pungente contraste formava com o estado reamargurado de seu coração. O golpe que recebera na véspera repercutia-se agora em sua alma, ainda mais rude e doloroso. Ali esteve por mais de uma hora pensativo, perplexo e mergulhado no mais profundo abatimento. Não atinava com o que deveria fazer, e desejaria ali ficar para sempre mudo, imóvel, petrificado como uma estátua.
Por fim resolveu-se a procurar na agitação do corpo alguma diversão aos pensamentos que lhe escaldavam o cérebro. Pegou no chapéu, e saiu à toa e sem destino pelas ruas da povoação. Encontrou muitos amigos e conhecidos que o cumprimentavam, e da boca dos quais, sem que o perguntasse, ouvia a confirmação da fatal notícia do casamento de Lúcia. Esse casamento andava de boca em boca, e era o acontecimento que então mais preocupava a imaginação do público. Elias andava como que atordoado; aquele movimento e burburinho da população como que lhe causava vertigens. Os cumprimentos e felicitações de seus amigos o perturbavam, e pareciam-lhe um sarcasmo cruel. Assim vagou maquinalmente pelas ruas. Quando se recolheu a casa, era já meio- dia.
Logo ao chegar à casa do negociante, veio-lhe ao encontro o seu arrieiro a pedir-lhe dinheiro para pagamento do milho e mais despesa da tropa. Tirou da carteira uma nota de 20$000 e apresentou- a ao caixeiro da casa, pedindo-lhe que a trocasse por miúdos. O caixeiro, depois de examinar a nota por um instante, devolveu- a a Elias.
- Perdão, meu amo, disse-lhe o caixeiro, não lhe posso servir: esta nota é falsa.
Elias, enfiou. Não podendo ficar mais pálido do que estava, tornou-se verde.
- Falsa! repetiu com uma voz que lhe saía do coração, e mal passava pelos lábios.
- Falsa, sim senhor; se duvida chamemos o patrão.
Não foi preciso chamá-lo; ele vinha entrando nesse momento pela loja.
- Oh! bom- dia, amigo; como passou? levantou-se cedo! então, por onde andou? andou matando saudades? decerto ainda não almoçou? passou melhor do seu incômodo de ontem?
O pobre moço naquele momento tinha talvez mais vontade de enforcar-se do que de responder àquela chusma de perguntas com que seu hóspede à queima- roupa o obsequiava.
- Já nada sofro; estou bom, respondeu Elias em tom breve. Apresentei esta nota a seu caixeiro para ma trocar, e disse-me ser falsa. Veja.
- Falsíssima! exclamou o negociante, depois de examinar a nota um momento. São notas falsas procedentes da Bahia. Há muito tempo o comércio está avisado, e o governo já tem expedido as mais terminantes ordens e tomado medidas enérgicas para descobrir os moedeiros falsos, e consta que as pesquisas feitas vão obtendo resultado.
- Bem! vou ver outra, interrompeu bruscamente Elias; e tirou da carteira uma nota de 50$000. E esta? também será falsa?
- Ainda mais falsa do que a outra, se é possível, exclamou o negociante, apenas olhou para a nota. Ah! meu caro senhor Elias, como é que foi deixar-se embaçar por essa maneira? . . .
- Falsa! falsa! . . . deveras? ! . . . murmurava o moço com voz rouca e abafada.
- É o que lhe digo, meu amigo; ninguém aqui na Bagagem dará cinco réis por qualquer dessas notas.
- Em que mundo andei eu, pois, meu Deus! ! meu Deus! estou perdido! perdido para sempre!
E, atirando-se sobre um tamborete, que estava perto do mostrador, apertava convulsivamente a cabeça entre as mãos.
- Perdido por tão pouca coisa? por uns 70$000! o caso não é para tanto, meu amigo.
- Prouvera ao céu fosse só isso! . . . soluçou Elias com voz apenas inteligível.
- Como diz? . . . então não é só isso? . . .
Elias já não ouvia mais; estava aniquilado debaixo da nova e horrível catástrofe que acabava de fulmina-lo.
Traído em seu amor, vira na véspera derrocado em um momento o formoso castelo de suas esperanças, construído com tanto enlevo nos sonhos de dois anos de inquietações e trabalhos. Quando ia colocar a pedra do remate na cúpula do edifício, ei-lo que de súbito se desmorona até os fundamentos. Restava-lhe ainda a fortuna, consistente em algumas dezenas de contos, que à força de vontade, inteligência e atividade adquirira no Sincorá.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.