Por Bernardo Guimarães (1872)
– Pois bem, minha filha; – disse-lhe o pai depois de muita insistência de parte a parte; – propunha-te esse casamento porque acredito que é o único meio de salvar-te; mas já que queres morrer e arrastar-me contigo à sepultura, faça-se a tua vontade.
– Não, meu pai, – exclamou a moça tomando a mão de seu pai, beijando-a com ternura e banhando-a em lágrimas; – já que meu pai assim o quer, e assim acha conveniente, farei o que meu pai determina, visto que esse casamento,– murmurou ela em voz mais baixa e como a medo, se não pode me fazer feliz, também não me tornará mais desgraçada do que sou Paulina, que já tinha renunciado a toda a esperança de felicidade no mundo, não quis e nem pôde recusar-se ao sacrifício que dela exigia seu pai quase com as lágrimas nos olhos. Se não tinha amor a seu primo, também não lhe tinha aversão. Casada ou não, teria de sofrer sempre até morrer. Resignouse portanto e curvou-se à vontade de seu pai, porque assim tinha ao menos o prazer, embora fosse por pouco tempo, de alentá-lo com a esperança de um futuro no qual ela mesma pouca ou nenhuma confiança tinha.
Nesse mesmo dia Joaquim Ribeiro despachou um próprio com um bilhete a Roberto, pedindo-lhe que o mais breve que fosse possível chegasse a sua casa. Escusado é dizer, que no outro dia à hora de almoço Roberto apeava-se ofegante e ansioso de curiosidade à porta da casa de seu tio, e largando à porta o animal batendo virilha e pingando suor, de dois pinotes galgou a escada da varanda; e se não chegou mais cedo, é porque não tinha asas.
Cumpre-nos aqui dizer que Roberto, depois da partida de Eduardo, não tinha perdido nem um ceitil da paixão que tinha por sua prima, e não deixava de fazer reiteradas visitas à fazenda de seu tio, e ora em caçadas, ora campeando uma rês perdida, ora por qualquer outro pretexto, que sabia inventar, lá ia quase sempre esbarrar e pernoitar. Vendo-a triste e indisposta perguntava-lhe o que tinha. Ela sempre meiga e afável respondia-lhe, ora que era uma indisposição de estômago, ora uma constipação, e o simples do rapaz acreditando piamente estava longe de suspeitar, que tudo aquilo não era menos do que o efeito de uma paixão profunda, da qual ele não era o objeto, e lá de si para si julgava, que a moléstia de Paulina não era senão vontade de se casar, pois tinha ouvido dizer a muita gente que algumas moças adoecem e morrem por não se casarem a tempo. Roberto, além de ser muito moço, – pois teria vinte anos quando muito, – não tivera educação alguma; demais, vivendo sempre na roça, não tinha a menor experiência de mundo, e muito menos desse pequeno mundo tão cheio de problemas e mistérios, que se chama coração humano. Era um simplório, mas tinha um excelente caráter, e muita sensibilidade. Há muito tempo desejava falar ao tio no seu casamento com Paulina; mas tinha vergonha e acanhamento como uma moça. Todas as vezes, que ia a casa do tio, ia na firme resolução de falar-lhe francamente no negócio, mas apenas chegava à sua presença, a coragem o abandonava, falava muito, contava mil histórias, e por fim nunca dizia ao que ia.
Portanto compreende-se como lhe caiu a sopa no mel, quando Joaquim Ribeiro, francamente e sem rodeios, lhe declarou, que o mandara chamar com o único fim de comunicar-lhe, que era seu desejo efetuar com a maior brevidade possível o casamento dele com sua filha. O rapaz não cabia na pele de contente, e não pôde disfarçar aos olhos do tio sua alegria infantil e grotesca; estava como embriagado; beijou a mão do tio, e derretendo-se em protestos de gratidão e amizade tais parvoíces soltou, representou tantas farsas, que faziam sorrir o bom do velho, se não tivesse a alma tão carregada de graves e sombrios pensamentos.
Paulina não apareceu a seu primo senão muito tarde, à hora do jantar; desculpou-se com suas costumadas enxaquecas e indisposições; a coitada estava efetivamente mais pálida e desfeita que nunca. O primo desta vez já mais ousado não cessou de atormentá-la com um chuveiro de obséquios e galanteios impertinentes, a que a moça respondia com uma frieza e mesmo com um ar de displicência, que em vão se esforçava por dissimular. Só a nímia simplicidade de Roberto poderia não perceber quanto ela se achava constrangida e contrariada. É que no coração da infeliz dava-se então uma terrível luta, e começava a sentir, quanto era pesado o sacrifício, a que por condescender com seu pai se havia sujeitado.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.