Por José de Alencar (1864)
Achei-a lendo uma folha de pequeno papel bordado que me pareceu carta: pensei que fosse da prima. Ela nem ergueu os olhos para cumprimentar-me; e respondeu com uma simples inclinação da fronte. Senteime; dirigi-lhe por vezes a palavra sem obter mais resposta que um sim ou não; afinal conhecendo que ela estava preocupada, esperei calado pelo seu bel-prazer.
Emília leu e releu, talvez já esquecida da minha presença; dobrando o papel, que meteu no bolso, começou a passear pela sala, visivelmente distraída. Por momentos soltava débeis modulações de alguma ária; depois fugia-lhe pelos lábios um sorriso misterioso, desses que se sorriem sem consciência, verdadeiras esfinges d'alma. Não me pude mais conter:
—Adeus, D. Emília. Vejo que minha presença começa a incomodá-la: é tempo de torná,-la mais rara e menos importuna.
—Ah! já cansou de esperar? respondeu com um ligeiro riso de mofa.
—Já perdi a esperança, confesso-lhe. Já; porque enfim compreendo o que se passa em seu espírito. —Queria que me dissesse isso! Ficaria sabendo.
—Dir-lhe-ei; por que não? A senhora é de uma bondade extrema e cuida que eu tenho direito à sua gratidão. Conheceu que eu a amava, que esse amor era minha felicidade e minha vida. Pareceu-lhe que recusar-me em troca sua afeição, era o mesmo que recusá-la a um pai, a um irmão. Quis amar-me, porque é boa; fez todo o possível para isso, mas debalde... O amor nasce de si mesmo, de repente, sem que o suspeitem. Se ele viesse quando o chamamos e desaparecesse à, vontade, não era o que é, uma fatalidade. Iludiu-se, D. Emília. O homem a quem há de amar, a senhora não o conhece, nem o viu talvez. Quando aparecer, não lhe dará tempo de interrogar-se. Seu coração palpitará por si mesmo, e a senhora sentirá que ama, sem saber como, nem quando, começou a amar! —Talvez isso seja verdade para outras; para mim asseguro-lhe que não. O amor, como eu sonho e espero, há de ser a minha vida inteira; portanto pareceme que tenho o direito e até o dever de conhecê-lo antes de entregar-me a ele sem reserva e para todo o sempre.
—É outra ilusão sua! O amor tem a crença ingênua da eternidade; quem o sente acredita sinceramente que ele não se extinguirá nunca. Eu não tive a felicidade de lhe inspirar essa fé sublime ; portanto que esperança posso ter? O melhor talvez fosse retirar-me, porque à força de querer violentar seu coração, Emília, talvez acabe odiando-me!...
—Odiando-o?... exclamou Emília assustada. Como lhe veio semelhante pensamento? —Não me disse já, uma vez? —Cale-se! atalhou ela com inexplicável pavor.
Emília ficou algum tempo muda e pálida, absorta na estranha emoção.
—Augusto!... disse-me ela afinal, e com terna melancolia. Não tem razão. Quem me fez acreditar no amor? Quem me deu a fé e a esperança nele?... Lembre-me! Antes de conhecê-lo, eu duvidava.
Essa palavra e um sorriso bastaram para serenar minha alma.
XIV
HAVIA grande reunião em Matacavalos.
Tinha visto Emília de relance. Ela sofria já a ebriedade das luzes, da música e dos perfumes, que a dominava sempre em pleno salão. Nesses momentos havia em toda a sua pessoa, na atitude e nos movimentos, anelos impetuosos. Parecia provocar as emoções.
Seus lábios aspiravam então com avidez o ambiente do baile.
Mas seu pudor suscetível não a abandonava nunca. Ela atravessava a multidão agitada, como a borboleta que enreda o vôo por entre as ramagens do rosal, sem ferir nos espinhos a ponta das asas sutis.
O que a protegia na confusão, não era tanto o rápido olhar, como um sétimo sentido, que só ela possuía: uma espécie de previsão dos objetos que se aproximavam.
Contudo, eu sofria muito vendo Emília assim esquecida de mim e engolfada nos prazeres que outros partilhavam. Essas horas do baile eram meu lento suplicio. Algumas vezes, bem como nessa noite, eu evocava debalde as recordações dos dias passados, debalde me acusava de egoísta; o ciúme afinal me vencia.
Foi já, quando o coração me desfalecia, que ela pela primeira vez veio onde eu estava.
Notei sua grande palidez. O seio arfava precipitadamente. A fadiga ou a emoção lhe havia umedecido a fronte. Seus olhos tinham um bilho vítreo que incomodava.
—O baile já a fatigou?... Muito depressa!... disse-lhe com o riso amargo.
—Quase não dancei!... Mas não sei o que sinto!... Não me acha muito pálida? —Há de ser o calor!... Esta sala é muito abafada! —O calor? Se eu tenho frio... frio n'alma!... É a febre que vem!... murmurou com um riso singular.
Nessa ocasião o Dr. Chaves aproximou-se para oferecer-lhe o braço.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.