Por José de Alencar (1870)
Amélia ficou surpresa; ela supunha que Leopoldo tinha-lhe ardente paixão, e que portanto sentiria profundo pesar, senão desespero, com a notícia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma resignação serena.
Quando comecei a amá-la, D. Amélia, disse Leopoldo depois de alguns instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançá-la neste mundo. Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara e cuidou atraí-la e embebê-la em seu seio. Mas essa ilusão se desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e compreendi que a senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente sua alma; essa, ninguém me pode roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a notícia de seu casamento; ela não me surpreendeu, embora me entristecesse. Até agora adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no sepulcro.
Leopoldo falou por algum tempo ainda, e a moça, que a princípio se acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras ardentes do mancebo como fluido que derramava em sua alma suave calor.
Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:
— Por que julgou ele impossível que eu o amasse? Sem dúvida não o amo; mas talvez... Se eu não conhecesse Horácio... Quem sabe?
Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e portanto faltavam treze para a decisão.
— Se ele não vier antes disso? Se não vier... respondo que não. Está decidido.
CAPÍTULO XII
Correram os dias sem que Horácio aparecesse em casa do Sales Pereira. Amélia, apesar de seu esforço, não podia conter a impaciência. Ela adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria obrigá-la a conceder-lhe imediatamente o que pedira: a sua mão, e com a mão o pezinho que ele adorava.
Por vezes a moça foi até à porta do gabinete do pai, na intenção de dizer-lhe que escrevesse a Horácio enviando-lhe o consentimento; mas voltava envergonhada de sua fraqueza; enxugava alguma lágrimas que lhe saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.
Nestas ocasiões ela contemplava a imagem de Horácio com alguma severidade. Lembrava-se da volubilidade com que ele falava-lhe de seu amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos lábios e servia para vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou comovida, e finalmente da insistência que mostrava em ver-lhe o pé.
Então acudia a Amélia uma circunstância que a princípio lhe escapara: fora sua recusa à impertinência do leão, que o obrigara a pedi-la em casamento no dia seguinte.
— Será apenas um capricho? Não me terá ele verdadeiro amor?... Se não me engano, o que ele ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que imaginou; sirvolhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.
O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não ao pedido de Horácio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:
— Ainda não?
Ela corava, abanava a cabeça e fugia, dizendo consigo que ainda faltavam alguns dias para o prazo marcado.
Para ocupar as noites e distrair o espírito dessa constante preocupação amiudou as visitas à casa de D. Clementina. Ali com a influição do olhar profundo e da palavra eloqüente de Leopoldo, esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas doces reminiscências, e sobretudo um certo arroubo do coração, que durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preocupações.
Já haviam passado doze dias depois da carta, e Amélia estava mais que nunca resolvida a romper com Horácio, quando se deu entre ambos um encontro.
Foi no teatro.
Amena que a princípio evitou as ocasiões de encontrar-se com Horácio, lembrou-se que sua presença podia provocá-lo, e obteve do pai que a levasse ao espetáculo. Subindo a escada do Teatro Lírico, avistou Horácio que vinha do lado oposto.
Apesar de estar prevenida, a moça teve um sobressalto; mas pôde recobrarse antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com fria altivez e indiferença que ela correspondeu ao cumprimento de Horácio, sem demorar o passo enquanto ele trocava um aperto de mão com o Sales Pereira.
Esta indiferença porém, e sobretudo o gesto que Amélia fez para arregaçar o vestido quando subia o segundo lanço de escada, ataram de novo o leão ao jugo.
— Desta vez, pensou ele, se eu estivesse adiante, via ao menos a ponta do meu pezinho!
Teria Amélia simulado aquele gesto de propósito? É natural; ela queria subjugar outra vez o cativo que escapara; usava de todos os seus recursos.
Vencido, o moço acompanhou a família até à porta do camarote e demorouse aí a conversar com o negociante. Entretanto Amélia, sem dar-lhe a mínima atenção, percorria com o binóculo os camarotes trocando com a mãe observações a respeito das moças e seus lindos adereços.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.