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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Petit — Mais de vinte caixeiros que traz contas, e faz bulha de mil diables, dizendo que quer dinheiro por força.

Maurício — Irei falar-lhes imediatamente.

Petit — E da minha parte, eu também faz cumprimento a monsieur e a madame, e pede três meses de salário que não recebeu, e agora mesmo vai embora.

Hortênsia — Tal e qual como Fanny ainda há pouco!...até eles nos abandonam!...

Maurício (Tira a carteira e dá dinheiro) — Toma; vai-te: pelo menos não se dirá que caloteamos até os nossos criados.

Petit — Eu faz cumprimento e deseja muitas felicidades...

Maurício — Deixa-nos (Vai-se Petit). Estás vendo a triste posição a que temos descido?...

Hortênsia — E Leonina?...e Leonina?...

Maurício — Quase que estimo que ela não tenha sido testemunha de tão vergonhosas cenas.

Hortênsia — Até o mano Anastácio nos desampara!...

Maurício — Paciência. Espera-me, Hortênsia; vou falar aos caixeiros e aos cobradores que me enchem a escada: vou corar diante deles, e entregar-lhes todo o dinheiro, que me renderam as tuas jóias. (Vai-se).

CENA III

Hortênsia e logo Anastácio.

Hortênsia — Oh! meu Deus, quem dissera que eu me veria em tão lamentável situação?!

Anastácio — Eu lho predisse, minha cunhada.

Hortênsia — Meu mano! Meu mano!...

Anastácio — Onde está a multidão de amigos que dia e noite enchia as salas desta casa?...de que lhe serviram esses bailes, esses banquetes, essa vida de ostentação, com que enganava o mundo?... que é feito do seu orgulho de nobreza?...oh! as músicas dos saraus e o ruído das festas trocaram-se pela gritaria que levantam ali na escada os caixeiros insolentes; e aos aplausos dos parasitas sucederam as maldições dos credores enganados.

Hortênsia Meu mano, não redobre os nossos sofrimentos; as desgraça que caiu sobre nós é horrível!

Anastácio — Essa desgraça é justo castigo da Providência. Consulte a sua consciência, que é a voz de Deus que lhe fala n’alma, e reconhecerá que ela lhe está dizendo: “Mulher, tu és um exemplo doloroso que deve ensinar às esposas e às mães a seguir o caminho da virtude. Mulher, tu foste a causa do infortúnio de teu marido, porque o arrojaste no abismo da dissipação; tu empurraste tua filha para a sua perda, porque lhe deste uma educação perniciosa e fatal. Mulher, tu foste má esposa; mulher, tu foste mãe desamorosa; tu foste parenta ruim: recebe portanto o merecido castigo. O teu vício foi o luxo; fica pois miserável: a tua paixão foi a vaidade; fidalga improvisada! Fica abaixo da plebe!...

Hortênsia — Oh! piedade! Compaixão!...

Anastácio — Olhe que não sou eu quem lho digo; é a sua consciência que, sem dúvida, lho está dizendo.

Hortênsia — Tem razão, pragueje contra mim; mas nem por isso desconheça que a nossa infelicidade é cruel e atroz.

Anastácio — Pelo contrário, eu a considero muito proveitosa, e útil.

Hortênsia O senhor zomba dos seus parentes no infortúnio: é um homem sem generosidade, um homem mau!

Anastácio — Acima dos meus parentes está a nação que pode colher benéficos resultados da lição que oferece a sua desgraça. A sociedade acha-se corrompida pelo luxo e pela vaidade, e um quadro vivo das conseqüências desastrosas dessas duas paixões talvez lhe seja de prudente aviso. Em Maurício verá o homem de medíocre fortuna e especialmente o empregado público, que a ostentação e o fausto de alguns anos determinam a miséria de todo o resto da vida; nas suas lágrimas de esposa e de mãe, as mães e as esposas verão os horrores a que as pode levar o abuso do amor de um marido extremoso e cego e a falsa educação dada às filhas. A sua triste pobreza proclama a necessidade da economia. A própria desonra de meu irmão ensina que desvairado pela paixão do luxo, um homem honesto é capaz de arrojar-se até o crime. As suas pretensões de nobreza, enfim, dizem ao mundo que o ouropel não é ouro, que a máscara não é o rosto, e que nobre, verdadeiramente nobre é só o que é virtuoso e probo, o que é grande e generoso, o que é digno de Deus e da pátria. Sofra pois, sofra! E de joelhos agradeça a Deus a punição que recebe.

Hortênsia — E minha filha...a minha Leonina...

Anastácio — Sua filha é uma órfã, porque nunca teve pais que a guiassem pelo bom caminho. Ela é órfã e Deus é o pai dos órfãos.

Hortênsia — Oh! que homem este! Ao ver os nossos martírios somente acha para dizer-nos palavras de amargor e quase de insulto!

Anastácio — Sou rude, senhora; mas a minha boca não sabe dizer senão a verdade.

Hortênsia — Nem se lembra de que está humilhando e desprezando os seus parentes!

(continua...)

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