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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Esta vila se povoou de novo com título do Espírito Santo, e muitos dos moradores, não se havendo ali por seguros do gentio, se passaram a outras capitanias. E tornando-se Vasco Fernandes para a sua capitania, vendo-a tão desbaratada, trabalhou todo o possível por tomar satisfação deste gentio, o que não foi em sua mão, por estar impossibilitado de gente e munições de guerra, e o gentio mui soberbo com as vitórias que tinha alcançado; antes viveu muitos anos afrontado dele naquela ilha, onde, a seu requerimento, o mandou socorrer Mem de Sá, que naquele tempo governava este Estado; o qual ordenou na Bahia uma armada bem fornecida de gente e armas, que era de navios da costa, mareáveis, da qual mandou por capitão a seu filho Fernão de Sá, que com ela foi entrar no rio de Cricaré, onde ajuntou com ele a gente do Espírito Santo, que lhe mandou Vasco Fernandes Coutinho; e sendo a gente toda junta, desembarcou Fernão de Sá em terra, e deu sobre o gentio de maneira, que o pôs logo em desbarate nos primeiros encontros, o qual gentio se reformou e ajuntou logo, e apertou com Fernão de Sá, de maneira que o fez recolher para o mar, o que fez com tamanha desordem dos seus que, antes de poder chegar às embarcações, mataram a Fernão de Sá, com muita da sua gente, ao embarcar; mas, já agora, esta capitania está reformada, com duas vilas, numa das quais está um mosteiro dos padres da companhia, e tem seus engenhos de açúcar e outras muitas fazendas. No povoar desta capitania gastou Vasco Fernandes Coutinho muitos mil cruzados, que adquiriu na Índia, e todo o patrimônio que tinha em Portugal, que todo para isso vendeu, o qual acabou nela tão pobremente, que chegou a darem-lhe de comer por amor de Deus, e não sei se teve um lençol seu, em que o amortalhassem. E seu filho, do mesmo nome, vive hoje na mesma capitania, tão necessitado que não tem mais de seu que o título de capitão e governador dela.

C A P Í T U L O XLIII

Em que se vai declarando a costa do Espírito Santo até o cabo de São Tomé.

Do rio do Espírito Santo ao Guarapari são oito léguas; e faz-se entre um e outro rio uma enseada. Chegando a este rio de Guarapari estão as serras, que dizem de Porocão, e corre-se a costa do morro de João Moreno até este rio, norte-sul; e defronte do morro de João Moreno está a ilha Escalvada. Do rio de Guarapari à ponta de Leritibe são sete léguas; e corre-se a costa nordeste-su-doeste, cuja terra é muito alta; essa ponta tem, da banda do norte, três ilhas, obra de duas léguas ao mar e a primeira está meia légua da terra firme, as quais têm bom surgidouro; e estão essas ilhas defronte do rio Guarapari. A terra deste rio até Leritibe é muito grossa e boa para povoar como a melhor do Brasil, a qual foi povoada dos goitacases. Esta ponta de Leritibe tem um arrecife ao mar, que boja bem uma légua e meia, a qual ponta é de terra baixa, ao longo do mar. De Leritibe até Tapemirim são quatro ou cinco léguas, cuja costa se corre nordeste-sudoeste, a qual está em vinte graus e três quartos. De Tapemirim a Managé são cinco léguas, a qual está em vinte e um graus; de Managé ao rio de Paraíba são cinco léguas, e corre-se a costa nordeste-sudoeste, e toma da quarta ao norte-sul, o qual rio de Paraíba está em vinte e um graus e dois terços. Este rio de Paraíba tem barra e fundo por onde entram navios de honesto porte, o qual se pode tornar a povoar, por derredor dele e ao longo do mar. Da Paraíba ao cabo de São Tomé são sete léguas, cuja costa se corre nordeste-sudoeste, o qual cabo está em vinte e dois graus. Pelo nome deste cabo o tomou a capitania também de São Tomé, até onde corre o limite dos goitacases, de quem diremos em seu lugar.

C A P Í T U L O XLIV

Em que se trata de como Pedro de Góis foi povoar a sua capitania de Paraíba ou de São Tomé,

Pedro de Góis foi um fidalgo muito honrado, cavaleiro e experimentado, o qual andou na costa do Brasil com Pedro Lopes de Sousa, e se perdeu com êle no Rio da Prata; e pela afeição que tomou deste tempo à terra do Brasil, pediu a el-rei D. João, quando repartiu as capitanias, que lhe fizesse mercê de uma, da qual S. A. lhe fez mercê, dando-lhe trinta léguas de terra ao longo da costa, que se começariam onde se acabava a capitania de Vasco Fernandes Coutinho, e daí até onde acaba Martim Afonso de Sousa, e que, não as havendo entre uma capitania e outra, que lhe dava somente o que houvesse, o que não passaria dos baixos dos Pargos. Da qual capitania foi tomar posse numa frota de navios, que à sua custa para isso fez, que proveu de moradores, armas e o mais necessário para tal empresa, com a qual frota se partiu do porto de Lisboa, e fez sua viagem com próspero tempo, e foi tomar terra e porto na sua capitania, e desembarcou no rio Paraíba, onde se fortificou, e fez uma povoação em que esteve pacificamente os primeiros dois anos, com os gentios goitacases seus vizinhos, com quem teve depois guerra cinco ou seis anos, dos quais se defendeu com muito trabalho e risco de sua pessoa, por lhe armarem cada dia mil traições, fazendo pazes, que lhe logo quebravam, com o que lhe foram matando muita gente, assim nestas traições como em cercos, que lhe puseram, mui prolongados, com o que padeceu cruéis fomes, o que não podendo os moradores sofrer apertaram com Pedro de Góis rijamente, que a despovoasse, no que ele se determinou obrigado destes requerimentos e das necessidades em que o tinham posto os trabalhos, e ver que não era socorrido do reino como devera. E vendo-se já sem remédio, foi forçado a despejar a terra, e passar-se com toda a gente para a capitania do Espírito Santo, onde estava a esse tempo Vasco Fernandes Coutinho, que lhe mandou para isso algumas embarcações. E como Pedro de Góis teve embarcação, se tornou para estes reinos mui desbaratado, dos quais voltou a ir ao Brasil por capi-tão-mor do mar com Tomé de Sousa, que neste Estado foi o primeiro governador-geral, com quem ajudou a povoar e fortificar a cidade do Salvador, na baía de Todos os Santos.

Nesta povoação que Pedro Góis fez na sua capitania gastou toda a sua fazenda que tinha no reino, e muitos mil cruzados de Martim Ferreira, que o favoreceu muito com pretensão de fazerem por conta da companhia grandes engenhos, o que não houve efeito pelos respeitos declarados neste capítulo.

C A P Í T U L O XLV

Em que se diz quem são os goitacases, sua vida e costumes.

(continua...)

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