Por Eça de Queirós (1925)
Alípio voltou-se, e o padre, levando-o para o vão de uma janela:
– Desculpe a curiosidade. Mas eu, nestas coisas de literatura, sou curioso. Sou apreciador. Gosto de bons versos... quando são bons! –E baixando a voz: – Vamos lá a ver como são as tais quadras...
– Quais? As que suprimi?
– Sim, as que suprimiu.
– Ah, deliciosas! – E, complacente, o nosso Alípio recitou ao ouvido do padre Augusto estas estrofes de um ardente erotismo lírico:
Fria, me dizias! Fria, tu, mulher?
Mas esses teus braços que s'estorcem, loucos,
Esse frágil corpo que o delírio agita,
Dessa ardente boca os gemidos roucos?
Porque balbucias no delírio, diz?
Porque desfaleces, adorada amante?
Oh! dá-me os teus lábios, oh, invoca a morte...
Que morrer é doce neste doce instante!
O padre Augusto coçou vivamente a cabeça:
– Hum! E o que eu dizia, é estar a vê-los. É que os estou a ver! Pois é uma bela poesia... E lá direi a D. Laura: tudo se acomoda, tudo se acomoda... Bela poesia!
Durante o resto da noite a atitude de Alípio foi reservada e prudente. Passou-a junto da mesa do voltarete, em silêncio, seguindo com uma atenção grave o interessante movimento das vazas. Mas, como me confessou mais tarde, «tinha a cabeça em fogo». As palavras do Dr. Vaz Correia voltavam-lhe constantemente à memória, tocando a rebate e alvoroçando-lhe a imaginação: «Eu trouxe-o aqui para agradar à mãe e à pequena! E parecia-lhe então que no seu futuro, que ultimamente se carregara, apareciam, aqui e além, como abertas reluzentes, clarões entrevistos de felicidades possíveis!
Doze mil cruzados de renda! E o Desembargador, com aquela obesidade, mórbida, D. Laura, com aquela amarelidão artrítica, não podiam decerto, coitados, durar muito... Os cabelos de Virgínia eram na realidade deliciosos... E uma cadeira em S. Bento tornar-se-ia decerto acessível a quem dispusesse de uma renda de doze mil cru-zados. Excelente casa aquela: mobília sólida e útil, boas pratas, bom piano!
E o seu desejo de agradar à família, aos amigos, era tão intenso, que, tendo o Conselheiro (que perdia) falado com irritação em «calistos», o nosso prudente Alípio levantou-se sem ruído, afastando-se discretamente.
A sua soirée fora até ali singularmente infeliz: querendo ser amável com a bela Fradinho, vira nos olhares indignados das senhoras que se suspeitava das suas intenções; desejando dar à sociedade o gozo de uma bela poesia bem recitada, ofendia os sentimentos pudicos de D. Laura; pensando lisonjear o Conselheiro pelo prazer que manifestava em o ver jogar, encalistava-o! Então, para não chocar nenhuma susceptibilidade, para não ferir nenhuma conveniência – como um homem que numa loja de bric-à-brac não se move, com medo de partir alguma peça cara – o nosso Alípio refugiou-se no vão de uma janela, e ali ficou, entre as cortinas, solitário, imóvel. Esse isolamento voluntário, porém, foi-lhe a breve trecho amplamente compensado: quando examinava, através da vidraça, o céu que se toldava, um ruge-ruge de seda correu sobre a esteira da sala, e voltando-se, pôde ver D. Virgínia que passava, e que lhe deu um longo olhar, um olhar de muda repreensão, como se ela também lhe quisesse dizer:
Para que levantas, sem cessar, poeta,
A fronte e contemplas a Lua sem véu?
Não vês tu, poeta, dentro dos meus olhos,
Segredos mais fundos que os que tem o céu?
Foi grande a sua tentação de entrar na sala, de falar com ela. Reteve-o, porém, o receio da indignação de D. Laura, quando visse o homem que recitava versos lúbricos em conversa íntima com sua filha.
Por isso, e porque eram onze horas, foi despedir-se de D. Laura; e qual não foi a sua comoção quando a ouviu, com uma voz que, agora, era quase branda e amiga, dizer-lhe:
– Quando quiser, senhor doutor, esta casa está às suas ordens. Teremos muito gosto em o ver...
Ao pé dela, padre Augusto sorria – e o nosso Alípio compreendeu que era à diplomática intervenção do honrado sacerdote que ele devia aquela benevolência inesperada.
Que influência ele tinha, o reverendo! Tudo em D. Laura mudara: a voz, o olhar, e até a mão que, agora, lhe pareceu menos hirta, mais quente, mais humana.
E ao descer, abafando-se cuidadosamente no seu cachené, perguntou ao criado que o acompanhava:
– Sabe-me dizer onde mora o Sr. Padre Augusto?
– Às portas de Santo Antão, 36, segundo, meu senhor. Em casa da Gervásio.
E daí a dois dias, como havia em casa da Adelaide Gervásio um quarto devoluto, Alípio tomava-o e passava a ser o companheiro, o confidente e o amigo do benévolo sacerdote.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.