Por Eça de Queirós (1888)
- Então ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mãos, no ardor já da partida. Os parceiros dirigiram-se á saleta do jogo - que um reposteiro de damasco separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos circulos de luz que cahiam dos abat-jour os baralhos abertos em leque. D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que «os deixara para um roquesinho de tres»; e retomou o seu logar ao lado de D. Eugenia, cruzando os pés debaixo da cadeira e as mãos em cima do ventre. As senhoras estavam fallando da dôr do dr. juiz de direito. Costumava dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em não querer consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo, amarellando - e a D. Augusta, a mulher, a nutrir á larga, a ganhar côres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa; e ao principio fôra o contrario; até sobre isso se tinham feito uns versos...
- Humores, disse com melancolia o dr. delegado.
Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco, coitadinho, na flor de idade! E que perfeição de rapaz! E que rapaz de juizo! D. Anna Silveira não se esquecera, como todos os annos, de lhe accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A viscondessa pareceu toda afflicta por se não ter lembrado... E ella que tinha o proposito feito!
- Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que tanto o agradecem, filha!
- Ainda está a tempo, observou o magistrado.
D. Eugenia deu uma malha indolente no crochet de que nunca se separava, e murmurou com um suspiro:
- Cada um tem os seus mortos.
E no silencio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro, o da viscondessa, que de certo se recordára do fidalgo d'Urigo de la Sierra, e murmurava:
- Cada um tem os seus mortos...
E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar reflectidamente a mão pela calva:
- Cada um tem os seus mortos!
Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava com cautella e arte as estampas dos Costumes de todos os Povos. E na saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz já arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, «passo, que é o que tenho feito toda a santa noite!»
N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada das suas vozes reanimou o canapé dormente.
Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz; quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirarse ao pé d'elle na almofada... Ora senhoras não viajam na almofada.
- E elle atirou-me ao chão, titi!
- Não é verdade! De mais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos á estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu não quiz... A gente, quando se apeia de viagem, a primeira cousa que faz é tratar do gado... E os cavallos vinham a escorrer...
A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:
- Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavallaram bastante. Senta-te ahi ao pé da sr.ª Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do cabello... Que desproposito!
Sempre detestára ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos, brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginação de solteirona passavam sem cessar idéas, suspeitas de ultrages que elle poderia fazer á menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para Sta. Olavia, recommendava-lhe com força que não fosse com o Carlos para os recantos escuros! que o não deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas, apenas na quinta, gostava de abraçar o seu maridinho. Se eram casados, por que não haviam de fazer néné, ou ter uma loja e ganharem a sua vida aos beijinhos? Mas o violento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras lançadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu coração mal comprehendido, chamava-lhe arrieiro; elle ameaçava boxal-a, á ingleza; - e separavam-se sempre arrenegados.
Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as mãos no regaço - Carlos veiu logo estirar-se ao pé d'ella, meio deitado para as costas do canapé, bamboleando as pernas.
- Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna.
- Estou cançado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e sem a olhar.
De repente porém, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho. Queria-o levar á Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o já pelo seu bello plaid de cavalleiro d'Escossia, quando a mamã accudiu atterrada.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.