Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Quis despedi-la ao fim de duas semanas, Jorge não consentiu; estava em dívida com ela, dizia. Mas Luísa não podia disfarçar a sua antipatia; - e Juliana começou a detestá-la; pôs-lhe logo um nome: a "Piorrinha"! Depois, dai a semanas, viu vir os estofadores; renovava-se a mobília da sala! A tia Virgínia deixara três contos de réis a Jorge - e ela, ela que durante um ano fora a enfermeira, humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o mostrengo, tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das canseiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa.

Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia num cubículo abafado; ao jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engomados era pesado; Jorge e Luísa tomavam banho todos os dias, e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha; achava despropositada aquela mania de se porem a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos e nunca vira semelhante despropósito! A única vantagem dizia ela à tia Vitória - era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além disso achava que o bairro era saudável; e como tinha a cozinheira "na mão", não é verdade? havia aquele regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de vez em quando! Por isso ficava; se não, não era ela!

Fazia no entanto o seu serviço; ninguém tinha nada que lhe dizer. O olho aberto sempre e o ouvido à escuta, já se vê! E como perdera a esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economizar; por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e satisfazia o seu vício - trazer o catita. O pé era o seu orgulho, a sua mania, a sua despesa. Tinha-o bonito e pequenino.

- Como poucos - dizia ela -, não vai outro ao Passeio!

E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito para fora. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Público, e ali, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de seda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, imóvel, feliz - a mostrar, a expor o pé!

CAPÍTULO IV

Pelas três horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta na véspera até deixara cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é que as pagava. E que calor! Era de derreter! Uf!

- O caldinho há de estar pronto, hem! - disse, adocicando a voz. - Tira-mo, Sra. Joana, fazfavor?

- Vossemecê hoje está com outra cara - notou a cozinheira.

- Ai! Sinto-me outra, Sra. Joana! Pois olhe que adormeci com dia, já luzia o dia!

- E eu! - Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma cor de fogo a passear-lhe por cima docorpo, e cada pancada na boca do estômago, como quem pisava uvas num lagar!

- Enfartamento - disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:

- Pois eu sinto-me outra. Há meses que me não sinto tão bem!

Sorri com os seus dentes amarelados. O caldo que Joana deitava na malga branca com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça dava-lhe uma alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janelas abertas.

O sol retirara-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor; sobre uma tábua a um canto, numa velha panela bojuda, verdejava um pé de salsa muito tratado; o gato dormia sobre um esteirão; esfregões secavam numa corda; e para além alargava-se o azul vivo como um metal candente, as árvores dos quintais tinham tons ardentes do sol, os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no

calor e pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura.

- Está de apetite, Sra. Joana, está de apetite! - dizia Juliana, remexendo o caldo devagarinho,com gula. A cozinheira de pé, com os braços cruzados

sobre o seu peito abundante, regozijava-se:

- O que se quer é que esteja a gosto.

- Está a preceito.

Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras. - E a campainha da porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.

Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam; ouvia-se ferver a panela no fogão, e fora o martelar incessante da forja; às vezes o arrulhar triste de duas rolas que viviam na varanda, numa gaiola de vime, punha na tarde abrasada uma sensação de suavidade.

A campainha retilintou, sacudida com impaciência.

- Com a cabeça, burro! - disse Juliana.

Riram. Joana fora sentar-se à janela, numa cadeira baixa; estendia os seus grossos pés, calçados de chinelas de ourelo; coçava-se devagarinho, no sovaco, toda repousada.

A campainha retiniu violentamente.

- Fora, besta! - rosnou Juliana, muito tranqüila.

Mas a voz irritada de Luísa chamou debaixo:

- Juliana!

- Que nem uma pessoa pode tomar a sustância sossegada! Raio de casa! Irra!

- Juliana! - gritou Luísa.

A cozinheira voltou-se, já assustada:

- A senhora zanga-se, Sra. Juliana.

- Que a leve o diabo!

Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa.

- Você não ouve, mulher? Estão a bater há uma hora!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2425262728...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →