Por Eça de Queirós (1870)
Nem uma palavra de conselho, de análise, de crítica!Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de ar, de espaço, de liberdade.
Não posso ficar eternamente imóvel, como um condenado, como pesado fuzil de um segredosoldado a um pé.
Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei partido para fora do país. As ambulâncias do exército francês precisam de cirurgiões. Vou alistar-me comofacultativo. O meu país dispensa-me, e eu, como todo um homem na presença dos infortúnios irremediáveis, sinto a doce necessidade de ser útil. Fica sabendo o meu destino.Um dia saberá o meu nome.
Despedindo-me — seguramente para sempre — dos seus lei tores, cuja atenção tenho largamente prendido com a narrativa deste caso lúgubre, seja-me permitido acrescentar umaderradeira palavra:
A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por exten so nesta página, A. M.C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrário quis alegar o amigo dele que sob a letra Z. veio defendê-lo neste mesmo lugar, A. M. C., quais quer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circunstân cias que rodeiam o crime, conheceointeriormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.
Se estas linhas chegarem aos olhos desse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da hon ra e da dignidade das pessoas envolvidas em tãoestranho sucesso. Procure no correio uma carta que lhe dirijo nesta mesma data. Nessa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou ver-me e falar-me pessoalmente. Sea sua idade, se as condi ções da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquilidade da sua família, a incompetência da sua autorida de, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até à última das suas
consequências,arrancando a tal mistério a secreta verdade que ele envolve, dirija-se a mim, colaboraremos juntos nessa obra, que tenho por meritória e por honrada. Eu aceitarei clara e abertamentepara todas as consequências e para todos os efeitos a responsabilidade que daí pro venha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua hon ra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule.Quanto a ti, meu querido e meu honrado F.., não creio que seja vítima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu único peri go está, a meu ver, no teu impacientemelindre, nos teus delicados escrúpulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio.
Que te matassem cobardemente no cárcere clandestino que há pouco tempo ainda tu iluminavas com a tua pachorra e a tua ale gria, não pode ser. Que a esta hora tenhas sidoobrigado a jogar a tua vida trocando em desagravo de honra uma estocada ou um ti ro com algum dos teus misteriosos comensais, isso acho lógico, e é possível.Punge-me não sei que vago e triste pressentimento... Meu po bre F...! Se estará destinado que não nos tornemos a ver! Se o dia fatal em que regressámos ambos de Sintra, descuidados, conten tes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos in-fortúnios, terá acaso de ser o último dessa doce convivência que por tanto tempo nos juntou!...E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos num turbilhão implacável e terrível da crua solidariedade humana!
Que remédio?! Se a vida é isto, aceitemo-la corajosamente como ela é, e avan te! Aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!
SEGUNDA CARTA DE Z. Senhor redactor. — Acabo de ver publicada na sua folha de ho je uma carta em que odoutor ***, com uma insistência malévola, torna a inculcar, como cúmplice no atentado de que ele se fez o his toriador voluntário, o meu pobre amigo A. M. C.Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia, com o auxílio único da minha coragem e da minha astúcia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurandopenetrar e dssfiar a tenebrosa história que, há mais de uma semana, vem todos os dias sucessivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar dian te de um público atónito um quadro misterioso e lúgubre.Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatórios, visitas aos lugares, tudo foi inútil. A história perde-se cada vez mais numa névoa que a afoga: e o meu pobre M. C. láesta ainda — não sei se num retiro voluntário, se numa sequestração forçada. Na impossibilidade de descobrir, fisicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi vir buscá-la às mesmas cartas do doutor. Ana lisei-as, decompu-las palavra por palavra. E sem contar osprocessos, apresento os resultados.
O Mistério da Estrada de Sintra é uma invenção: não uma invenção literária, como aoprincípio supus, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos desta invenção:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.