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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Ele mesmo entrou, ela teve um rubor de virgem que penetra na câmara nupcial; e, apenas entrou, ele apoderou-se dela, arrastou-a para a alcova do lavatório, e ali no escuro, violentamente, freneticamente, beijou-a pelos olhos, pelo cabelo, pelo chapéu, fartando-se da doçura que ela trazia do frio da rua. Ela disse baixo:

— Não, não, olha a Teresa!

— Manda-a embora, eu vou levá-la – murmurou ele. – Tu ficas, amor, nunca mais nos separam.

Ela consentiu, num beijo.

CAPÍTULO IX

No dia seguinte, num momento de enternecimento, querendo dar à sua felicidade um meio mais poético – e como o tempo estava adorável -, Godofredo propôs o irem estar uns dias a Sintra. E aí foi uma lua-de-mel. Estavam na Lawrence, tinham um pequeno salão para eles sós; levantavam-se tarde, Godofredo quis champagne ao jantar, e beijavam-se às escondidas debaixo das árvores. E Godofredo não a deixava um instante, ávido de gozar de novo aquela intimidade, que ele julgava perdida, sentindo um prazer infinito em a ver apertar o colete, encontrar um chambre dela sobre uma cadeira, ou assistir-lhe ao penteado.

Ao fim de quatro dias voltaram; e esta lua-de-mel prolongou-se ainda em Lisboa, cheia e larga, sem considerações pôr despesas, com carruagem da companhia, e camarote em São Carlos. Godofredo queria mostrar-se pôr toda a parte com ela, para tapar as bocas do mundo. Em São Carlos mesmo tomava sempre uma frisa, bem em evidência, fazendo exposição da sua felicidade doméstica. E como Ludovina, com os ares da Ericeira, voltara mais forte, mais cheia, magnífica na sua forte beleza de trigueirona forte, os homens na platéia olhavam-na muito; havia sempre algum binóculo fixo sobre ela.

— Lá estão a olhar – dizia Godofredo. – Estão pasmados de nos ver juntos... Pois é para que saibam.

E à frente do camarote puxava devagar os punhos, sorria à sua Lulu.

Numa dessas noites dava-se a Africana, pela primeira vez. E Ludovina, que durante toda a representação estivera torturada com um par de botinas novas, quis sair no meio do quinto ato; e ele cedeu logo, apesar do prazer que lhe davam os gorgeios patéticos da Alteroni, sob as ramagens das mancenilheiras, à luz trágica da lua cheia. Agasalhou-a, deu-lhe o braço: - e no peristilo, a um canto, esperavam que se aproximasse a carruagem da companhia, quando, de repente, apareceu o Machado, de charuto na boca, enfiando o paletot. Ele decerto não os viu porque continuou, através do peristilo, assobiando, com o seu ar um pouco gingado, de gravata branca, acabando de abotoar o paletot . Mas de repente deu com eles! Um momento pareceu hesitar, ficou enleado, pálido, com os dedos esquecidos nos botões. Depois decidiu-se, tirou profundamente o chapéu. De dentro da gola branca da saída de baile, ela fez um ligeiro movimento de cabeça, baixou os olhos, séria, impassível, imóvel, com a sua grande cauda azul apanhada na mão. E Godofredo, depois de hesitar também um instante, terminou pôr dizer alto um olá Machado, boa noite! Machado saíra vivamente, para fora.

No dia seguinte, quando Godofredo entrou no escritório, Machado já estava à sua carteira. Depois dos cumprimentos secos e usuais, Godofredo esteve um momento remexendo os papéis, lendo a correspondência; depois deu um olhar vago e distraído ao jornal; evidentemente estava preocupado, com o pensamento noutra coisa; e de repente recostou-se, fez estalar os dedos, perguntou ao Machado:

— Então ontem que tal lhe pareceu a Alteroni?

Era a primeira vez que lhe dirigia uma palavra – estranha aos negócios da firma! Machado ergueu-se um pouco nervoso para responder:

— Gostei muito... E você?... Boa voz, hein?

E estas banais palavras, apenas soltas, foram como portas dum dique que se abre. Godofredo erguera-se também – e foi um fluxo de palavras, dum e doutro, ao princípio hesitantes, depois tomando calor, aproximando-os um do outro, formando uma viva corrente de simpatia. Era como dois amigos que se encontram depois duma ausência; e cada um reconhecia no outro aquilo que nele sempre estimara: com um trivial gracejo do Machado sobre o tenor, Godofredo ia rebentando a rir – e uma observação de Godofredo sobre o uníssono das rabecas interessou imensamente o outro, fê-lo pensar que o Godofredo era realmente um grande entendedor de música. Depois Godofredo falou da estada em Sintra. E um momento conversaram sobre Sintra, dizendo cada um os sítios que lá preferia, a impressão que eles lhe davam – como se depois daquela longa separação sentissem a necessidade de conferirem as suas idéias e os seus gostos respectivos. Depois, como Machado tinha de sair mais cedo – o shake-hands que deram à despedida foi profundo, ardente, duma reconciliação completa, unindo-os outra vez e para sempre.

(continua...)

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