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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os aromas do 202, desde folhas de limonete da Índia até essência de jasmim de França; e lavei a alma com uma rica carta da tia Vicência, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe saíra tão fina, e da alegre fogueira do pátio em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabeluda que viera do Céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, à janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca, tomando chá de Naïpò, respirando os rosais do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhara, na rua do Hélder, com um estardalho muito magro e muito tisnado! E concluí que padecera duma longa sezão, sezão da carne, sezão da imaginação, apanhada num charco de Paris – nesses charcos que se formam através da Cidade com as águas mortas, os limos, os lixos, os tortulhos e os vermes duma Civilização que apodrece.

Então, curado, todo o meu espírito, como uma agulha para o Norte, se virou logo para o meu complicado Príncipe, que, nas derradeiras semanas da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descaído pôr cima de sofás, ou vagueando através da biblioteca entre os seus trinta mil volumes, com arrastados bocejos de inércia e de vacuidade. Eu, na minha pressa indigna, só lhe lançava um distraído – “que é isso?” Ele, no seu moroso desalento, só murmurava um seco – “é calor!”

E, nessa manhã da minha libertação, ao penetrar antes de almoço no seu quarto, no sofá o encontrei enterrado, com o Fígaro aberto sobre a barriga, a Agenda caída sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, e os pés abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e repurificado, a brancura das minhas flanelas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, impressionaram o meu Príncipe – a quem a melancolia nunca embotava a agudeza. Ergueu molemente um braço mole:

-Então esse capricho?

Derramei sobre ele todo o fulgor dum riso vitorioso:

-Morto! E, como o Sr. De Marlborought, “morto e bem enterrado”. Jaz! Ou antes, rola! Com efeito deve andar agora rolando pôr dentro do cano do esgoto!

Jacinto bocejou, murmurou:

-Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!...

E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele Príncipe pela suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou esse consumado egoísmo... Claramente percebia eu que o meu jacinto atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa, e ele tão afundado na sua mole densidade, que as glórias ou os tormentos dum camarada não o comoviam, como muito remotas, intangíveis, separadas da sua sensibilidade pôr imensas camadas de algodão. Pobre Príncipe da Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia, com os pés no regaço do pedicuro! Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão bravamente todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua luta contra a Força e a Matéria! – e esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes, quando recomeçou entre nós a comunhão de vida e de alma a que eu tão torpemente me arrancara, uma tarde, diante da Estação dos ônibus, no charco da Madalena!

Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado Jacinto não torcia os braços, gemendo – “Ó vida maldita!” eram apenas expressões saciadas; um gesto de repelir com rancor a importunidade das coisas; pôr vezes uma imobilidade determinada, de protesto, no fundo dum divã, de onde se não desenterrava, como para um repouso que desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que sublinhava cada passo, continuado pôr fraqueza ou pôr dever iniludível; e sobretudo aquele murmurar que se tornara perene e natural – “Para que?” – “Não vale a pena!” – “Que maçada!...”

Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grilo:

-Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que será, Grilo?

O venerando preto declarou com uma certeza imensa:

-S. Exª. sofre de fartura.

(continua...)

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