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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Toda a manhã, em tempo de safra, inteiramente de branco, montado no "Quitute", um cavalo ruço-malhado, Caiana, corria os canaviais; e, se encontrava com um comboio de canas, nas usineiras linhas Decauville, olhava a pequena locomotiva e sempre se lembrava de admoestar o foguista-maquinista:

— Olhe o manômetro que não está limpo.

Eis aí a sua agricultura, de que veio tirá-lo o braço forte do general

Tupinambá. Vejamos como. Ascendendo à governança da Província das Canas, Tupinambá tratou logo de eleger senador da Bruzundanga o seu forte esteio eleitoral, o doutor Chico Caiana. Arranjaram as atas e mandaram-nas, e mais ele, para a capital do país.

Quando saltou, era um gozo ver o Chico Caiana atravessar as ruas com um ostentoso chapéu Panamá, terno de linho branco, botinas inteiriças de pelica amarela e açoiteira pendente do pulso direito. Olhava tudo alvarmente; e, de quando em quando, ficava surpreendido de que ninguém o conhecesse. O doutor Chico Caiana, da usina do Cambambu! Não conhecem? Que gente fútil!

O Senado não o quis reconhecer; porém, Mandachuva, que tinha a palavra empenhada com Tupinambá, arranjou as cousas. Determinou que o Ministro da Guerra fosse estudar na Europa o fabrico dos mais modernos medicamentos alemães; transferiu o Ministro da Agricultura para a pasta da Guerra e nomeou Caiana para aquela outra.

Tomando posse, o famoso e prático usineiro imediatamente teve uma grande admiração.

— Onde está aqui agricultura?... Estes papéis... Isto não é prático!... Quero cousas práticas!... Canaviais... Engenhos... Qual! Isto não é prático! Vou fazer uma reforma!

Mandou chamar Ormesson para ajudá-lo e, nesse ínterim, andou às cristas com os seus subalternos. Vinha o chefe da Contabilidade e ele gritava:

— Qual verba 29, letra A! Isto é uma trapalhada! Quero cousas práticas! Vou chamar o Félix, o meu guarda-livros, lá do Cambambu, a minha usina. Conhece?

O inspetor do serviço de veterinária vinha pedir-lhe autorização para instalar um laboratório e Caiana berrava:

— Qual laboratório! Qual nada! Tudo isto é pomada! Vou mandar chamar o Nicodemo. Conhece? Pois trata toda a espécie de moléstias de animais com sangria ou óleo de andaiaçu. Quero cousas práticas! Práticas, está ouvindo?

Tendo chegado o francês e o guarda-livros, ele recomendou ao primeiro:

— Ormesson, vê como havemos de fazer isto aqui ser mesmo de agricultura. Quero cousa prática! Hein? Vê lá, se vais beber! Hein?

Ao guardo-livros, ele disse:

— Tome conta dessas cousas de papéis aí, que não pesco nada disso.

A Nicodemo, nada o doutor Chico recomendou, porque o alveitar não quis deixar as Canas.

O francês não bebeu e, dias depois, trouxe o projeto de transformar a chácara da Secretaria em campo agrícola.

— Amendoim! — exclamou o Ministro. — Não dá nada! Se fosse cana... "Mindobi", só para preta velha vender torrado...

Ele não conhecia, não admitia outra cultura que não fosse a da cana-de-açúcar. Ormesson convenceu-o e o ministro determinou o plantio aconselhado. Um dos diretores pediu autorização para admitir trabalhadores.

— Trabalhadores! Ponha lá os escriturários, esses escreventes todos...

— Mas...

— Não tem mas, não tem nada! Quem não quiser, deixe o lugar, que eu arranjo outros mais baratos.

Não houve remédio senão os oficiais da sua Secretaria de Estado irem puxar o rabo da enxada.

Houve, no ano seguinte, uma complicação internacional e o açúcar começou a ser procurado. Chico Caiana não se importou mais com as cousas do ministério e aproveitou a posição para ganhar dinheiro. Durante muito tempo, o Mandachuva não o viu. O guarda-livros era quem lhe levava os atos necessitados da assinatura presidencial.

Um dia o chefe do governo perguntou ao auxiliar do grande agricultor:

— Onde está o doutor Phrancisco Novilha?

— Está ocupado com coisas práticas.

CAPÍTULO XII

OS HERÓIS

A República da Bruzundanga, como toda a pátria que se preza, tem também os seus heróis e as suas heroínas.

Não era possível deixar de ser assim, tanto mais que a prática sempre foi feita para os heróis, e estes, sinceros ou não, cobrem e desculpam o que ela tem de sindicato declarado.

Um país como a Bruzundanga precisa ter os seus heróis e as suas heroínas para justificar aos olhos do seu povo a existência fácil e opulenta das facções que a têm dirigido.

O mais curioso herói da pátria bruzundanguense é sem dúvida uma senhora que nada fez por ela, antes perturbou-lhe a vida, auxiliando um aventureiro estrangeiro que se meteu nas suas guerras civis.

Para bem compreenderem o meu pensamento, é preciso que antes lhes recorde por alto alguns pontos da história política da Bruzundanga. Vou fazê-lo. A atual república consta de territórios descobertos pelos iberos e povoados por eles e por outros povos das mais variadas origens.

(continua...)

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