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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

- Hércules, Cristo, D. Quixote. Hércules é a bondade heróica e mitológica; Cristo é a bondade medieval e católica; D. Quixote é a bondade moderna idealizada na ironia do livre exame. Três imagens dolorosas, geradas de estranho pessimismo. Hércules tem a púrpura abrasadora de Nessus; o Nazareno tem a Cruz; o cavalheiro de Cervantes tem o carnaval das armaduras e o pelourinho implacável da gargalhada.

III

Hércules enche o passado. Concretiza a alma dispersa das resistências. Vive na Pérsia, no Egito, nas Gálias a tradição herculana, como símbolo da força propícia contra a força adversidade. Hércules é o amparo e a defesa. O chão é rebelde e estéril, - Hércules é o sol que cria a nuvem e a fecundidade. A humanidade está cercada pela conspiração dos monstros, hostilizada pelas forças ocultas da natureza e pelas sugestões da maldade, a iniqüidade devastadora campeia em auge - Hércules faz a justiça de Talião. Monstro de Neméia, hidra de Lema, corcéis de Diomedes, touro de Creta, Anteu, Lacínio, Gerion, Cacus, Buziris, sob qualquer fisionomia que se manifeste a tirania e a violência,. Q herói a chama a combate. Zombou de Juno, que era a cólera celeste, e libertou Prometeu, que era o sofrimento humano. Carregou aos ombros o firmamento, por alívio de Atlas, que era o trabalho forçado, e destruiu a necessidade cosmegônica, abrindo à expansão ampla do oceano a clausura do pedrado Mediterrâneo, erguendo às portas do Atlântico padrões eternos do cometimento - as poderosas colunas.

Missionário do sacrifício, era a lei dos fados que o herói sucumbisse. Armou-se a intriga maldita do amor da esposa com a vingança do centauro e Ele foi vencido, o bom, o forte, o justiceiro, o sempre vencedor - pela traição do Destino. Sofreu como deve sofrer o sol envolvido no esplendor flamejante da própria glória e, como o sol, vestindo a túnica da sua tortura, Hércules fez a jornada do dia, caminho do ocidente, atravessando o teatro das grandes empresas, direito às nuvens sobre o monte, escuras como o pressentimento dos amores de Iola, e foi pedir sossego à morte na fogueira do Oeta, simultaneamente incendiada com a rebentação rubra do crepúsculo.

Cristo é a mitologia nova. Veio aperfeiçoar o mosaísmo no sentido do coração e substituir o ideal fatigado das aras pagãs. A fatalidade fluvial dos fatos reconquistara o primitivo andamento. Haviam renascido os monstros do sangue derramado dos monstros. O egoísmo, filho da Terra como Anteu, ressurgia da última derrota, válido e potente. Era preciso ensaiar de novo a Redenção do Cáucaso. Nasceu, então, o filho de Maria, por graça do Espírito Santo, como outrora o filho de Alcmene por obra de Júpiter. Repetiu-se o sagrado mistério da encarnação do Ideal na humanidade: veio à luz o inimigo da serpente do Gênesis, esmagada como as de Juno.

Mas estava transformado o mundo. Começava a civilizar-se o mal, perdida a feição rudimentar de brutalidade da natureza nascente, vegetando outro, sobre a geologia tranqüila do planeta constituído; entrava até a decair a grandeza romana. O novo campeão, em vez da hercúlea dava teve o ânimo da propaganda e um ramo de oliveira. Paz entre os homens na terra, como a beatitude dos anjos na altura. Guerra ao demônio apenas, com as armas da fé e da graça. Crer e esperar. Guerra ao demônio sensualidade, guerra ao demônio ambição - inimigos da ventura calma do bem. Abaixo os altares do terror e do sangue! Façamos a eucaristia incruenta do amor.

Arranquemos a espada às mãos da velha Justiça, em nome da Justiça nova do perdão. Contra as vaidades, desprezo; contra as tiranias, paciência; contra as injúrias, silêncio: Jesus tacebat. Amor ao homem por amor do Ideal divino.

E espalhou-se pelo universo a doutrina do pregador Nazareno; ora, terrível de energia como no evangelho de ferro de São Mateus, com o estribilho tenaz dos prantos e o estridor dos dentes e o nervoso conselho: quem tiver ouvidos - ouça! ora, triunfal e radiante, como em São João.

À semelhança do seu antecessor da Grécia pré-histórica, Cristo acabou no suplício. Falharia, entretanto, a verdade do poema humano dos séculos, se, vitimados os heróis, não fosse salva a apoteose da Idéia. O Bem é imortal. Hércules ressurge:

Quem pater omnipotens inter cava nubilaraptur Quadjugo curru radiantibus intulit astris.

Cristo ressurge: Ascendo ad Patrem meum, ad Patrem vestrum. Cristo para a Bem-aventurança eterna do Paraíso; Hércules para o consórcio de Hebe, a eterna juventude.

D. Quixote é a decepção; é o retrospecto cômico da cavalaria andante de todos os tempos. Diante do descalabro miserando da angelitude prática, o livre exame fez a sátira do riso.

(continua...)

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