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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

O banqueiro guardava a atitude respeitosa e fidalga de quando se exibia nos salões. Ia responder, mas ouviu passos na areia. Voltou-se: eram as outras pessoas, o Raul, Evaristo, Adelaide e o secretário, que se aproximavam silenciosamente.

Foi longo o passeio através das árvores, em romaria bucólica e matinal pelas avenidas do jardim. O visconde colhia flores dedicadamente para as senhoras. D. Branca, mesmo na presença do marido, colocou uma na sua botoeira, sempre risonha, sempre afável, multiplicando-se em gentilezas ao Santa Quitéria. Adelaide, entre Evaristo e Furtado não perdia o ar ingênuo e melancólico que tanto preocupava ao Manhães na noite do batizado e que encantava o secretário. Este volvia constantemente os olhos para ela e de vez em quando arriscava um segredinho inofensivo, uma pilheriazinha, elogiando-a, gabando-lhe os olhos, a boca, fazendo alusões amorosas às flores, glorificando o amor livre dos pássaros, lembrando cenas de romances, episódios do campo... Furtado aproveitava os momentos em que o bacharel ia, com o Raul, fazer provisão de flores para enfeitar a mesa do lanche".

Os dois já não sabiam onde colocar flores; levavam grandes buquês feitos à pressa. O secretário achava muita graça naquela amizade do Raul ao Evaristo.

— Se meu marido é uma criança! — ralhava Adelaide.

— Uma criança de vinte e oito anos!... — dizia o secretário.

— Criança, porque não tem juízo, porque não se importa...

— Deixe-o lá, deixe-o lá... É gênio.

— Mas não fica bonito, não é sério.

De novo entravam todos na grande além de palmeiras e de novo chegaram ao caramanchão escolhido para o piquenique.

Ia para as onze horas. O sol inundava a floresta e nenhuma nuvem toldava a maciez límpida do céu. Todos respiraram ao entrar no improvisado restaurante coberto de folhas, rodeado de árvores e onde se gozava uma frescura deleitosa e aromada de selva.

— Uf! — respirou Evaristo sentando-se. — Já é andar. Olhem que demos a volta ao jardim!

— Outra dose de vermute - propôs o secretário.

— Apoiado, apoiado! - murmurou o visconde fazendo-se alegre.

As duas senhoras conversavam endireitando as toilettes, revistando-se uma à outra com risadinhas.

O Antônio pusera "a mesa"; uma toalha muito branca alvejava no pequeno recinto que a luz mal penetrava. Sobre a toalha brilhavam os talheres de metal branco e os copos de cristal muito finos, e as flores que o Raul colhera. Ao aspecto risonho da mesa as fisionomias tomaram uma expressão viva de conforto. — "Era tempo de se ir comendo qualquer coisinha..." — balbuciou Evaristo ao secretário. Este dispunha tudo na melhor ordem, falando ao Antônio, sorrindo ao banqueiro, uma atividade pasmosa de garçon d'hótel.

De dentro da caixa da confeitaria surgiu primeiro um prato com "vol-au-vents e logo seguiu-se o estampido de uma garrafa que se abre.

— Vamos, vamos — comandou Furtado. — Senhor visconde. D. Adelaide... Branca... Evaristo... Vão se sentando...

Riram-se todos à falta de cadeiras. Mas havia no caramanchão, longe da mesa, um banco de pedra, onde se sentaram as duas senhoras. Os homens comiam em pé.

— Aqui há ainda um lugar, senhor visconde - ousou amavelmente a esposa de Furtado conchegando-se à amiga.

— Não, não, minha senhora, obrigadíssimo; eu faço companhia aos do meu sexo...

— Isso, visconde, isso! — aprovou o bacharel. — Um homem é um homem!

Vieram outros pratos, outras iguarias delicadamente feitas no Pascoal, sob encomenda do secretário: uma esplêndida torta de camarões — regada a Sauterne — ostras e uma bela garoupa fria e apetitosa, não falando no hors-d'oeuvre no fiambre, nas azeitonas muito fresquinhas e muito negras que o visconde colhera com a ponta dos dedos, e as frutas ao dessert — pêssegos, uvas e abacaxi frappé.

O almoço correu alegre, muitíssimo alegre, cheio de risos, fermentado pelo

Bourgogne e pelo champanha — um almoço leve, delicadíssimo e substancial, "aristocraticamente fino", como ideara o esposo de D. Branca. Evaristo, ao abrir-se o champanha, pediu que não se fizessem brindes.

— O brinde é a maior tolice do século dezenove — explicou ele, tragando uma roda de abacaxi. - O brinde parece até uma invenção do Valdevino Manhães ou de Mr. de La Palisse; eu sou contra o brinde como sou contra a mon...

Ia dizendo monarquia, mas arrependeu-se logo, sem olhar para o visconde:

— ... Como sou contra o voto feminino!

— Eu só compreendo o brinde quando é de honra, à Sua Majestade o Imperador, à princesa... ou mesmo a um homem ilustre que se não confunda com o resto da gente.

— Qual, senhor visconde! exclamou o bacharel depondo o talher.

(continua...)

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