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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

E com pouco Bom-Crioulo escancarava a janelinha do quarto, recebendo em cheio, no rosto, a frescura matinal: — Agora queria ver se o arrancavam dali. Uma ova! Estava em sua casa, muito bem escondido. Não era nenhum burro de carga!...

Veio-lhe à mente o grumete: — Aleixo ainda se lembraria dele? Sim, porque neste mundo a gente vive enganada... Quanto mais se estima uma pessoa, mais essa pessoa trata com desprezo. E afinal, ele, Bom-Crioulo , não caíra do céu...

Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando... O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa d’água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.

— Eu faço idéia! ... murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual. Eu faço idéia!...

Nesse instante o carrilhão de S. José começou a bimbalhar os “Sinos de Corneville”, enchendo o espaço de uma alacridade sonora e festiva que multiplicavase em notas de uma limpidez offenbachiana, como se fosse um maravilhoso instrumento de cristal suspenso nos ares... Instintivamente o marinheiro cantarolou o velho trecho da opereta:

Dlingo, dlingo, dlingo,

Dlingo, dlingo, dlão!

No fundo estava alegre, sentia-se humorado, com ímpetos de criança brejeira, como um pássaro solto... Estranhava-se até! Há muito não amanhecia tão bem disposto...

O retrato do imperador sorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais “republicanos”, porque o velho tinha sentimento e gostava do povo... Acendeu um cigarro e deitou-se.

— Ah! isso era outra cousa! não lhe fossem falar em navios de guerra: preferia sua cama, seu bem estar, seu descanso.

Pela janela entrava agora uma réstia de sol, e o carrilhão continuava o seu interminável estribilho musical...

Dlingo, dlingo, dlingo,

Dlingo, dlingo, dlão!

— Bom-Crioulo, ó Bom-Crioulo!

— Anh!... Que é?

— Acorda rapaz, olha que não tarda meio-dia.

— Meio-dia?

— Sim, pois não vês o sol como vai alto?

D. Carolina, vendo que o marinheiro estava custando a descer, foi acordá-lo. Amaro dormia profundamente, com a boca aberta, estendido na cama, o boné sobre os olhos, um fio de baba escorrendo pelo queixo, imóvel... Pendiam-lhe os braços numa frouxidão cadavérica. A mulher, ao entrar no quarto recuou pálida. — Jesus! estaria morto? O negro, porém, ressonava alto. — Que susto. Aproximou-se timidamente para o não sobressaltar e, quando ele abriu os olhos, viu-a, diante de si, muito gorda e risonha, toda em roupa nova, um avental branco.

— Acorde, seu preguiçoso! fez ela dando uma palmada na coxa do negro. Vamos, levante-se, que isto não são horas de dormir.

Bom-Crioulo ergueu-se vagarosamente, limpando a saliva com a manga, perguntou pelas horas, o corpo mole, os olhos vermelhos, um sabor esquisito na boca.

— Então que foi isso hoje? perguntou a portuguesa...

— Eu que fugi, disse o marinheiro naturalmente, abrindo os braços num bocejo. Vim no escaler das compras e aqui estou sem licença.

— Que loucura, filho! São capazes de mandar-te prender...

—... que os pariu! Não sou escravo de ninguém. Fujo quantas vezes quiser; ninguém me proíbe...

— Modera-te, rapaz. É preciso ir com jeito...

— Qual jeito qual nada, minha senhora! Depois que estou naquele navio ainda não tive descanso. Isso também é demais!

— Ora, meu filho, paciência. Deus há de ajudar... — É a tal história: fia-te na Virgem e não corras...

— Vocês lá se entendem, rematou a portuguesa, fitando o retrato do imperador, como se nunca o tivesse visto.

— Uma cousa, tornou Bom-Crioulo: o Aleixo tem vindo à terra? — Veio quinta feira, se não me engano...

E o outro contando os dedos:

— Quinta, sexta, sábado, domingo: ontem era dia dele vir...

— Agora vocês vivem sempre desencontrados. Não combinam...

— Vamos a saber, disse a mulher. Queres comer alguma cousa, ou já almoçaste?

— Nada, vou petiscar ali no frege.

— Manda-se comprar...

— Não, obrigado, preciso mesmo dar uma volta, esticar as pernas, fazer exercício.

— Cuidado! Olha algum oficial...

E dirigindo-se para a escadinha:

— Bom, vim apenas te acordar. Até logo.

— Té logo, madame. Então o pequeno só veio uma vez, hein? — Uma vezinha, coitado...

(continua...)

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