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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Obrigado!... E é verdade, João, lá dei a tua boneca á pequena. Começou logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de mãi, aquelle quid divino... É uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem mãi, coitadinha, lá a tenho, lá vou tratando de fazer d'ella uma mulher... Has de vêl-a. Quero que vocês lá vão jantar um dia, para vos dar umas perdizes á hespanhola... Tu demoras-te, Carlos?

- Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria.

- Tens razão, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac. Isto ainda não é tão mau como se diz... Olha tu para isso, para esse céo, para esse rio, homem!

- Com effeito é encantador!

Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do rio, vasto, lustroso, sereno, tão azul como o céo, esplendidamente coberto de sol.

- E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta. Abandonaste a lingua divina? Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia já a lingua divina? O novo Portugal só comprehendia a lingua da libra, da «massa». Agora, filho, tudo eram syndicatos!

- Mas ainda ás vezes me passa uma coisa cá por dentro, o velho homem estremece... Tu não viste nos jornaes?... Está claro, não lês cá esses trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada aqui ao João. Ora eu t'a digo se me lembrar...

Correu a mão aberta pela face escaveirada, lançou à estrophe n'um tom de lamento:

Luz d'esperança, luz d'amor, Que vento vos desfolhou?

Que a alma que vos seguia

Nunca mais vos encontrou!

Carlos murmurou: «Lindo!» Ega murmurou: «Muito fino!» E o poeta, aquecendo, já commovido, esboçou um movimento d'aza que foge:

Minh'alma em tempos d'outr'ora, Quando nascia o luar,

Como um rouxinol que acorda Punha-se logo a cantar.

Pensamentos era flôres,

Que a aragem lenta de Maio...

- O snr. Cruges! annunciou o criado, entreabrindo a porta.

Carlos ergueu os braços. E o maestro, todo abotoado n'um paletot claro, abandonou-se á effusão de Carlos, balbuciando:

- Eu só hontem é que soube. Queria-te ir esperar, mas não me acordaram...

- Então continúa o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca te acordam?

Cruges encolhia os hombros, muito vermelho, acanhado, depois d'aquella longa separação. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado, enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais agudo, a grenha cahindo mais crespa sobre a gola do paletot.

- E deixa-me dar-te os parabens! Lá soube pelos jornaes, o triumpho, a linda opera-comica, a Flôr de Sevilha...

- De Granada! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ahi, não desgostaram. - Uma belleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma musica toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas já lhe tenho dito: «Deixa lá a opereta, rapaz, vôa mais alto, faze uma grande symphonia historica!» Ainda ha dias lhe dei uma idéa. A partida de D. Sebastião para a Africa. Cantos de marinheiros, atabales, o chôro do povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, põe-se-me lá com castanholas... Emfim, acabou-se, tem muito talento, e é como se fosse meu filho porque me sujou muita calça!...

Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou a Carlos que não se podia demorar, tinha um rendez-vous...

- D'amor?

- Não... É o Barradas que me anda atirar o retrato a oleo.

- Com a lyra na mão?

- Não, respondeu o maestro, muito sério. Com a batuta... E estou de casaca.

E desabotoou o paletot, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois coraes no peitilho da camisa, e a batuta de marfim mettida na abertura do collete.

- Estás magnifico! affirmou Carlos. Então outra coisa, vem cá jantar logo. Alencar, tu tambem, hein? Quero ouvir esses bellos versos com socego... Ás seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho á portugueza que encommendei de manhã com cozido, arroz de forno, grão de bico, etc., para matar saudades... Alencar lançou um gesto immenso de desdem. Nunca o cozinheiro do Braganza, francelhote miseravel, estaria á altura d'esses nobres petiscos do velho Portugal. Emfim acabou-se. Seria pontual ás seis para uma grande saude ao seu Carlos!

- Vocês vão sahir, rapazes?

Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casarão.

O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Então elle partia com o maestro. O seu caminho ficava tambem para o lado do Barradas... Moço de talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de côr, tudo por acabar, esborratado, mas uma bella ponta de faisca.

- E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E não era só o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... Já não ha d'isso, já lá vai tudo. Emfim, acabou-se, ás seis!

- Ás seis, em ponto, sem falhar!

Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E d'ahi a pouco Carlos e Ega seguiam tambem pela rua do Thesouro Velho, de braço dado, muito lentamente.

(continua...)

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