Por Eça de Queirós (1888)
Ega declarou que ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final de dois annos de mocidade...
Subiu. E pousára apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo, no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se, gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim, reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiçal na mão tremula.
Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o, furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda fôfa a roçar o chão: mas voltou logo e esgatanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o d'uma dôr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e que não tornára a apparecer.
Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaça que dormisse essa noite no Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do gato a chorar. Deixára o montão de papeis sobre a mesa, voltára a aquecer os pés ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se sentára, ainda todo pallido, no sofá bordado a matiz, antigo logar de D. Diogo, murmurou devagar, gravemente:
- Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encomendou aqui as primeiras obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros e lendas... Pois fataes foram!
No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e libras que Villaça lhe entregára á porta do Banco de Portugal, Ega, com o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise serenamente, subiu ao primeiro andar da rua de S.
Francisco. O Domingos, de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da sala. E Ega pousára apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da Monforte - quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro, estendendo-lhe as mãos ambas.
- Então Carlos ?
Ega balbuciou:
- Como v. exc.ª póde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel, assim de surpreza...
Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella não conhecia o snr. Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o avô!
- Foi de repente, não?
Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corôa que ella mandára. Contou os gemidos, a afflicção do pobre Bonifacio...
- E Carlos? repetiu ella.
- Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
Ella apertou as mãos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a mais, diante d'aquella partida tão arrebatada, quasi parecida com um abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignação e de confiança que não sentia:
- Sim, com effeito, n'este momento não se pensa nos outros...
Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dôr, tão humilde e tão muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim ergueu-se, foi á janella, voltou, abriu os braços diante d'ella n'uma afflicção:
- Não, não é isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra coisa! Tem sido para nós dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...
Outra coisa?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma toda suspensa.
Ega respirou fortemente:
- V. exc.ª lembra-se d'um Guimarães, que vive em Paris, um tio do Damaso?
Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça.
- Esse Guimarães era muito conhecido da de v. exc.ª não é verdade?
Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraço que o dilacerava:
- Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu... Deus sabe o que me custa!... E é horrível, nem sei por onde hei de começar...
Ella juntou as mãos, n'uma supplica, n'uma angustia:
- Pelo amor de Deus!
E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do reposteiro, com Niniche aolado e a sua boneca nos braços. A mãi teve um grito impaciente:
- Vai lá p'ra dentro! deixa-me!
Assustada, a pequena não se moveu mais, com os lindos olhos de repente cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande chôro magoado. Então Ega teve só um desejo, o desesperado desejo de findar.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.