Por Eça de Queirós (1888)
flôres. Craft e o Cruges nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos; - e receberam a primeira surpreza ao vêr fechado o portão do Ramalhete. O ultimo a chegar foi o Sequeira, que passára o dia na quinta, e se abraçou em Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lagrima nos olhos injectados, balbuciando: - «Foi-se o companheiro de muitos annos. Tambem não tardo!...»
E a noite de vigilia e pezames começou, lenta e silenciosa. As doze chammas das velas ardiam, muito altas, n'uma solemnidade funeraria. Os amigos trocaram algum murmurio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exhalação das flôres forçaram o Baptista a abrir uma das janellas do terraço. O céo estava cheio d'estrellas. Um vento fino susurrara nas ramagens do jardim. Já tarde Sequeira, que não se movera d'uma poltrona, com os braços cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o á sala de jantar, a reconfortal-o com um calice de cognac. Havia lá uma ceia fria, com vinhos e dôces. E Craft veio tambem - com o Taveira, que soubera
a desgraça na redacção da Tarde, e correra quasi sem jantar. Tomando um pouco de Bordeus, uma sandwich, Sequeira reanimava-se, lembrava o passado, os tempos brilhantes, quando Affonso e elle eram novos. Mas emmudeceu vendo apparecer Carlos, pallido e
vagaroso como um somnambulo, que balbuciou: «Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa...» Mexeu n'um prato, deu uma volta á mesa, sahiu. Assim vagamente foi até á ante-camara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra surgiu da escada. Dois braços enlaçaram-no. Era o Alencar.
- Nunca vim cá nos dias felizes, aqui estou na hora triste!
E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de pés, como pela nave d'um templo.
Carlos no emtanto deu ainda alguns passos pela ante-camara. Ao canto d'um divan ficára um grande cesto com uma corôa de flôres, sobre que pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. Não lhe tocou, recolheu ao escriptorio. Alencar, diante do caixão, com a mão pousada no hombro do Ega, murmurava: «Foi-se uma alma de heroe!»
As velas iam-se consumindo. Um cansaço pesava. Baptista fez servir café no bilhar. E ahi, apenas recebeu a sua chavena, Alencar, cercado do Cruges, do Taveira, do Villaça, rompeu a fallar tambem do passado, dos tempos brilhantes d'Arroios, dos rapazes ardentes d'então:
- Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias, almas de leões, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este desgraçado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paixão... Affonso da Maia! Parece que o estou a vêr, á janella do palacio
em Bemfica, com a sua grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E lá vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, até se me faz a alma negra! Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.
Ega, depois de beber um gole de café, voltára ao escriptorio, onde o cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado no sofá, resonava; Sequeira defronte dormitaVa tambem, descahido sobre os braços cruzados, com todo o sangue na
face. Ega despertou-os de leve. Os dois velhos amigos, depois d'um abraço a Carlos, partiram na mesma carruagem, com os charutos accêsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem abraçar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que, no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoção, lamentando ainda o passado, os companheiros desapparecidos:
- O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem á margem! Senão, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao cemiterio. Adeus, não apanhes frio!
O enterro foi ao outro dia, á uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o Sequeira levaram o caixão até á porta, seguidos pelo grupo d'amigos, onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma corôa de violetas. Na calçada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as janellas do bairro se apinhava gente: os polícias berravam com os cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos véos de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupé. O correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o portão do Ramalhete.
Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o fumoir onde havia lume.
Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
- Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?
- Não. Para que?... Para lhe dizer o que? - Tudo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.