Por Visconde de Taunay (1871)
Tudo o que se pôde fazer, por falta de material e ferramenta, foi uma pinguela e ainda assim vacilante e pouco segura. Felizmente, porém, baixara sensivelmente o nível das águas e o rio mostrava-se vadeável. Começou a passagem da coluna às seis da manhã seguinte. Foi morosa e difícil. Os soldados atravessavam a água, levantando acima das cabeças armas e bagagens, a lutar com a rapidez da corrente.
Os doentes, os oficiais, os músicos e as mulheres utilizaram-se da pinguela. Houvesse o destino determinado que os inimigos cuidassem em assestar a artilharia numa esplanada que nos ficava a cavaleiro, ou simplesmente espalhassem atiradores em torno de nós, caro nos teriam feito pagar a invasão do seu território, no momento em que o deixávamos. Felizmente adotaram outro plano; separados em dois grupos, um esperou-nos à frente, ao passo que o outro se dispunha a cair-nos á retaguarda, desde que entre ela e o resto da coluna visse o rio. Não surtiu efeito a combinação, mantidos que foram a distância respeitosa pelo fogo rápido, e habilmente dirigido, de uma das nossas peças, a que, do alto da chapada, onde se estabelecera o nosso acampamento, podia varrer todos os arredores.
Depois dos batalhões do centro e seus canhões passou o gado costeado por dez ou doze homens, a quem comandava o capitão da guarda nacional Silva Albuquerque. Nossa vanguarda com as peças que tinham protegido a passagem, transpôs o rio a seu turno, coberta pelo fogo de uma bateria que acabava de tomar posições defronte da margem paraguaia.
Às nove e meia, quando nos achávamos todos em território brasileiro, foi a nossa ponte improvisada cortada por alguns soldados que para este serviço reservara o tenente Catão Roxo. Recomeçou o corpo de exército a marchar, acompanhando a margem que o fogo do forte de Bela Vista, agora arruinado, podia outrora dominar.
Tomou a dianteira o batalhão de voluntários do tenente-coronel Enéias Galvão, indo o 21.° de infantaria, comandado pelo major José Tomás Gonçalves, formar a retaguarda. Entre eles ficaram os corpos do centro: à direita o 20.°, comandado pelo capitão Ferreira de Paiva; e, à esquerda, o corpo de caçadores sob as ordens do capitão Pedro José Rufino. Cobria toda esta força duas linhas de carretas, no meio das quais iam as mulas carregando o resto de nossos viveres, munições e alguma bagagem de oficiais. Vinha depois o grupo das mulheres, dos enfermos e convalescentes. Nossas últimas juntas de bois arrastavam as peças; a de Marques da Cruz, no ângulo da direita; a de Nobre de Gusmão, no da esquerda; a de Cantuária à extrema direita da retaguarda; e a de Napoleão Freire à extrema direita.
À retaguarda do 20.° batalhão, e fora das linhas, tudo superintendendo iam o comandante e parte do seu estado-maior. A cada momento enviava, para todas as direções, os seus oficiais e ajudantes-de-campo, a fim de se regularizar o movimento. Por duas vezes ao chefe dos voluntários, à vanguarda, avisou que os seus atiradores, por demasiado ardor, se isolavam da coluna, com grande risco para todos, como não tardaram os fatos a demonstra-lo.
Avançávamos; e nossos olhos se despediam de Bela Vista, dizendo-lhe adeus e para sempre. Muitos daqueles que conosco estavam, então, não mais existem. O que podem desejar os seus sobreviventes é nunca mais regressarem àquele teatro de tanta miséria. Já se não percebia um pedaço de muralha branca, único destroço ainda de pé do que fora a fortaleza daquela fronteira; nada mais se via além das franças da mataria do Apa.
Aberta de todos os lados, estendia-se a campina acessível aos olhos, exceto num ponto a alguma distância, à nossa frente, e ponto que os nossos atiradores não haviam reconhecido. Uma espécie de escarpa ali mascarava o que verificamos ser profunda depressão do solo, embaixo de suave declive que tornava a subir para a Machorra, cujo caminho seguíamos. Ascendia o Sol, eram doze horas.
CAPÍTULO XII
Ataque vigoroso do inimigo. Nós o repelimos, mas, com o fragor do comoate, nosso gado se dispersa. Cenas do campo de batalha. A preta Ana. O ferido paraguaio. Vão os víveres faltar.
De repente, do fundo da que a estrada contornava, irrompeu um corpo de infantaria paraguaia que se lançou sobre a nossa linha de atiradores, através, dirigindo-se para o 17.° batalhão dela distante uns cem passos. Enquanto este se preparava para receber o ataque, os nossos atiradores, tornando a si da surpresa que ao inimigo permitira penetrar em nossas linhas, haviam-se voltado e o carregavam pela retaguarda Foi quando numerosos grupos de cavaleiros apareceram, a galope, derribando e acuilando a quantos encontravam.
Travou-se, por toda parte, terrível entrevero e tal que o nosso batalhão de voluntários de Minas hesitou a principio em fazer fogo, receoso de atingir amigos e inimigos. Acabou, afinal, por fazê-lo, juncando o solo de mortos e feridos. Isto pelo menos obrigou os paraguaios a recuarem e a fugir, mas somente para se reformarem` a alguma distancia.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.