Por Franklin Távora (1878)
A manhã estava esplendida. O sol aquecia, sem queimar, as plantas e os animais, vivificando-os. As vastas sombras dos matos e dos oiteiros, projetando-se sobre o capinzal donde iam desaparecendo os últimos pingos da orvalhada brilhante da noite, poder-se-iam comparar com as folhas fechadas de um livro imenso -–o livro da natureza. Poucas horas depois essas folhas estavam de todo abertas, a luz patenteava nelas muitas belezas, que a sombra ocultava antes, a saber, as moitas figurando ninhos virados, as flores inodoras, mas lindas, que costumam nascer pelos sopés das montanhas, as rolinhas, de duas em duas – modelos da união dos dois sexos estreitada pelos laços do afeto natural, modesto e sóbrio que Deus plantou no coração dos irracionais, e que só a razão, ou antes, a obliteração dela perturba na espécie humana – depinicando silenciosas, a fazer voltas em sentidos opostos e a encontrar-se depois, como para afirmarem mutuamente que nunca jamais se separariam, a não ser momentaneamente. Nenhuma dessas manifestações da vida campestre, nem mesmo o conjunto de todas elas, tinha despertado no coração de Marianinha o sentimento brando e indefinível que ela começou a conhecer dali por diante. Francisco e Lourenço não se demoraram, tiraram para a mata a falar com Victorino; a impressão porém que a assaltou, quando ela viu pela primeira vez o menino, e que depois, acrescentada pelas relações de amizade e pelo tempo, se agigantou a ponto de constituir-se um mundo, uma imensidade, essa perdurou para sempre não só em seus olhos, enchendo-os de novos brilhos, mas em toda a sua alma, povoando-a de nuvens rosadas e de paisagens verdoengas.
Eis porque Marianinha olhava agora ás furtadelas para o rapaz, achando graça particular no modo como ele botava o cacete sobre a tulha do feijão.
X
Seriam dez para onze horas quando deram principio ao trabalho.
Com o calor e as cacetadas os caroços entraram a separar-se dos longos estojos. Duas horas depois um montão de pó cobria grossa camada de sementes alvas e luzidias. Então os batedores suspenderam os cacetes e entraram para descansar. Victorino foi direitinho a uma botija que estava sobre a mesa, e derramando aguardente dentro de uma xícara, ofereceu o refrigerante licor ao compadre. Este não se fez rogar; de um trago enxugou a vasilha. A Lourenço, que não bebera do espirito, ofereceu nesse momento Marianinha uma tijelinha com cajuada. A menina tinha preparado com suas próprias mãosinhas este refresco. Já então se achava ai o Saturnino, que não podendo ver com bons olhos o agrado, quis, com o pretexto de gracejar, toma-lo das mãos de Lourenço. Este porém entregou-o, sem a menor oposição, ao sobrinho de Victorino, dizendo-lhe estas palavras:
- Tome para você. Não gosto de ponche de caju.
Marianinha, corando de contrariedade e confusão, voltou a trocar os bilros em sua almofada. Ela não queria mal ao primo, mas desde esse momento começou a trata-lo com manifesta frieza.
Entrava a esse tempo na sala a Bernardina trazendo um pedaço de cana. Lourenço foi-se a ela, no momento mesmo em que a menina o oferecia a Saturnino, e o arrancou da sua mão com surpresa. Esta violência irritou a moçoila que sem hesitar se atirou ao rapaz, a fim de retomar a propriedade. Ele resiste. A resistência leva a rapariga a insistir cada vez mais na sua resolução. Agarram-se os dois corpo a corpo. Agarrarem-se assim foi o mesmo que se abraçarem naturalmente. Os cachos dos negros cabelos da matutinha roçam pelas faces do travesso rapaz. Com ou sem intenção, conchega este aos seus seios os seios boleados da rapariguinha gentil e ofegante. Era já tempo de Saturnino interpor-se e ele, compreendendo a gravidade da luta, não se fez esperar.
Separam-se logo os discordes, um deles – Lourenço – com o pedaço do doce fruto disputado, o outro – Bernardina – com as mãos vazias.
- A cana não é para você, Lourenço – disse ela, resmungando com raiva. Eu a guardei par Saturnino.
- Ora, deixe-se disso – respondeu o endiabrado rapaz. saturnino ainda achou pouca a cajuada que lhe dei? Se quiser cana, vá corta-la na baixada. Esta é minha. Está doce que sabe já a açúcar.
Travou-se então um dize tu, direi eu que só teve fim quando os rapazes foram chamados pelos velhos para continuar o serviço interrompido. Ao sair para o pátio, Lourenço, pondo os olhos casualmente em Marianinha, achou-a pálida e séria como nunca a vira. A menina tinha a vista pregada na renda, como estava esta pregada na almofada pelos espinhos de cardeiro que nela serviam de alfinetes, segundo era de costume por esses tempos entre os pobres. Marianinha não teve mais para o seu noivo in peto olhares nem sorrisos nem atenções durante o restante do dia. Quando á tardinha, levantado o papelão, que Joaquina lhe dera por tarefa, ela foi com sua mãe e irmã sessar o feijão na urupema para o expurgar da areia e do barro original, a menina tinha no rosto a grave expressão que é própria não da filha mas da mãe de família. O despeito e o ciúme mordiam pela primeira vez seu coração, antes merecedor do contentamento inefável a que ela aspirava, do que do pesar profundo que ai tinham deixado os dentes envenenados destas duas serpentes interiores. Assim se passou esse dia, que projetou sombria nuvem, em forma de espectro ou de ave agoureira, na imaginação da pequena.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.