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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Conheço- a muito; é uma linda menina; mas. . . diziam-me que era muito esquiva; admira-me que se resolvesse a casar-se, e quem sabe. . .

- Quem sabe o quê?

- Quem sabe se não vai de muito boa vontade? . . .

- E por quê não? o noivo é um guapo mocetão, de bonita figura e fino trato, e, o que mais é, muito rico. Ela, como

Vcmê. Bem sabe, é a moça mais linda destes arredores; digo-lhe com veras que nunca vi casamento mais bem ajustado. O Major está um pouco arruinado, é verdade; mas o genro é riquíssimo, e, ao que dizem por aí, vai escorar o sogro, o que não lhe custará pouco. Com aquele casamento a felicidade entrou-lhe pela casa dentro.

- Entrou? ! . . . pois já? exclamou o moço com visível perturbação.

- Ou vai entrar, é o mesmo, pois o negócio é decidido, e está por poucos dias. É mais um par de rolinhas amorosas, como dizia um amigo meu meio metido a poeta, que veio fazer seu ninho aqui nas matas da Bagagem.

Elias não teve ânimo de dizer mais nem uma palavra; o coração lhe batia desencontrado; tinha as faces secas e a língua se lhe pegava ao céu- da- boca. Trêmulo e coberto de horrível amarelidão, mal se podia suster agarrado ao peitoril da janela.

Posto que já o sol tivesse entrado, e já fosse escasseando a luz do dia, o negociante não deixou de perceber a extrema perturbação e o transtorno das feições do rapaz. . .

- O que tem, meu amigo? . . . ainda agora parecia vender saúde, e agora o vejo tão pálido e desfigurado? está sofrendo decerto algum incômodo?

- Nada. . . quase nada. São acessos de intermitentes, que apanhei no Rio S. Francisco, e que às vezes ainda se repetem; mas passam logo.

- Ah! . . . ninguém lá vai que as não apanhe. Deite-se neste canapé, enquanto vou lhe mandar trazer um copo de vinho quente com açúcar; dizem que é bom. Depois, se quiser, chamarei médico. . .

- Aceito o vinho; mas não será preciso tomar maior incômodo; isto passa logo.

Elias aceitou o oferecimento mais para se ver a sós com o seu desespero, do que por necessidade que tivesse de auxílio algum. Seu coração, que até ali se enchia a transbordar de esperanças e venturas, sentiu-se subitamente atracado entre as garras da mais cruel decepção. Mil projetos desencontrados lhe tumultuavam na cabeça. Ora queria ir imediatamente ver Lúcia, exprobrar-lhe sua perfídia, e apunhalar-se à sua vista. mas isso seria uma triste vingança: não convinha deixa-los vivos e felizes sobre a terra. Iria procurar primeiro o infeliz sedutor, esbofeteá-lo, cuspir-lhe no rosto e depois arrancar-lhe as entranhas, e com o mesmo punhal, ainda fumegante do sangue do vil, imolar-se aos olhos da pérfida. . . Mas. . . ele era inocente talvez; ignorava que aquela embusteira já tinha penhorado a outrem por um juramento sagrado o seu amor e a sua mão. A vítima devia ser ela, somente ela. Mas como vingar-se dela? . . . mata-la? . . . semelhante idéia lhe repugnava. . . derramar o sangue de uma fraca mulher é a mais infame das cobardias, o mais monstruoso dos atentados. Despreza-la? . . . mas o desprezo só é um castigo, quando recai sobre pessoa que nos ama, e Lúcia! exclamava o infeliz estorcendo-se em ânsias de desespero, Lúcia não me ama; Lúcia nunca me amou; senão, jamais se teria tão facilmente esquecido de mim para se entregar a outrem. E assim não há remédio! nem o consolo da vingança me é dado! e a vítima de todos estes embustes e perfídias serei eu, somente eu!

Elias foi interrompido em suas febris maquinações por seu hóspede, que lhe trazia o vinho quente, enquanto uma escrava lhe preparava a cama em uma alcova imediata à sala. Depois de trocarem algumas palavras banais, o negociante julgou conveniente deixa-lo só, visto o seu incômodo de saúde, e depois de tê-lo cuidadosamente deitado em seu leito despediu-se recomendando-lhe que se abafasse bem.

Apenas porém o moço achou-se só, arrojou para longe de si coberturas e lençóis, saltou fora da cama, e começou a passear a passos precipitados ao comprido da sala. Assim passou grande parte da noite com a idéia de sua desgraça a devorar-lhe o cérebro, e a fustigar-lhe o coração.

Por fim, à força de pensar, ou antes, à força de delirar, começou a duvidar da realidade de seu infortúnio; achou que tinha sido demasiado leviano em dar tão depressa inteiro crédito às palavras do negociante, e apelou para o dia seguinte.

Embalado nessa dúvida consoladora, que o céu como que lhe enviara para dar algum repouso à sua imaginação tresvairada, adormeceu quando os galos já começavam a amiudar seus cantos.

IX – ALÉM DE QUEDA,COICE

O dia amanhecera esplêndido.

Os vultos das grandes árvores isoladas, restos da floresta, que o machado tinha poupado, debuxavam-se em um céu puro e rico de fulgores, e balanceavam os topes verdes- negros, como velhos caciques sacudindo os cocares nas danças sagradas.

(continua...)

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