Por Bernardo Guimarães (1872)
– Ah! meu pai, eu mesmo não sei o que sofro; não tenho indisposição, nem dor alguma; entretanto acho-me mal. O que sei dizer é que desde o dia em que estive a ponto de cair nas garras daquela onça, já não sou a mesma, e creio que nunca mais o serei. De que serviu aquele moço ter-me livrado das garras do animal, o choque que senti, arruinou-me a saúde.
– Assim devia ser, minha filha; compreendo muito bem, que à vista daquele animal feroz, aqueles gritos e alaridos... aquele moço aparecendo de improviso como caído do céu para salvar-te, e depois lavado em sangue e quase morto... tudo isso não podia deixar de causar um grande abalo nos nervos e alterar a saúde de uma fraca criança, como tu és. Mas tudo isso já se passou há tanto tempo... já lá vai quase um ano; e em vez de melhorar, te vejo sempre a pior, a pior... oh!... minha filha!... quererás me deixar sozinho neste mundo?...
– Oh? meu pai! não pense nisso. Deus é grande; isto há de passar, creia-me; são ainda efeitos do abalo que senti.
– Há de passar, há de passar, sempre estás a falar assim e cada vez estás a pior. Olha, minha filha, talvez te seja útil mudar de ares, ver novas terras, distrair-te por esse mundo. Já te tenho dito muitas vezes, o mal que te consome não é mais que pura nervosia; o que te convém é distração e não é no deserto desta fazenda que te hás de distrair. Vamo-nos embora; venderei fazenda, escravos, gado, tudo e iremos para Vila Rica, para S.
Paulo, para o Rio de Janeiro, para onde quiseres...
– Para quê, meu pai? o mal não está nesta terra, nem nestes ares, nem em nada do que me cerca; o mal está dentro de mim mesma, e me acompanhará por toda parte. Sossegue, meu pai; se Deus for servido, aqui mesmo melhorarei e ficarei boa.
– Deus assim o permita, minha filha! mas por quem és, não vás encerrar-te no quarto, nem lá ficar estatelada embaixo da gameleira, como costumas; não fazes idéia de quanto isso me aflige. Vai antes passear pelo quintal, tratar das tuas flores, dos teus passarinhos... senão fico pensando, que queres morrer mesmo, e me deixar sozinho neste mundo.
Joaquim Ribeiro já tinha suspeitado ou antes estava certo da causa dos sofrimentos de sua filha. Era para ele fora de dúvida que não era senão o moço que a tinha salvado da onça, que inspirando-lhe uma paixão cega e fatal, tendo-a livrado de uma morte desastrosa, a ia levando a outra morte mais lenta e talvez mais cruel. Sabia também que Eduardo estava ajustado para casar-se e talvez já estivesse casado com uma rica e formosa moça de seu país, e portanto por esse lado impossível lhe era tentar o mais poderoso senão o único remédio para o mal de sua filha. Todavia respeitando o melindre de Paulina, nunca ousou interrogá-la diretamente sobre tal assunto, porque entendia talvez com razão, que tocar em uma ferida, para a qual não podia dar remédio algum, só serviria para agravá-la. Propunha passeios e distrações a sua filha, mas ela quase sempre se recusava, e quando por condescender com seu pai os aceitava, voltava ainda mais triste e abatida que nunca.
Depois de envidar sem resultado algum todos os expedientes e recursos de que podia lançar mão, o velho depois de muito pensar e dar tratos à imaginação, capacitou-se de que o único meio que lhe restava a tentar para arrancar sua filha daquele estado de melancolia e prostração, que a ia arrastando ao túmulo, era o casamento.
A mudança de estado, a companhia e intimidade de um bom marido, o desempenho dos deveres domésticos, talvez produzissem no espírito da moça uma revolução salutar, e a restituisem à vida e à alegria. A dificuldade estava na execução desse pensamento. Se a causa de seus sofrimentos era, como pensava, a violenta paixão que havia concebido por Eduardo, bem difícil seria induzi-la a aceitar um marido, fosse ele quem fosse.
Todavia Joaquim Ribeiro não recuou diante de tal dificuldade, e deliberou envidar os últimos esforços para levar a efeito seu pensamento. Não tinha necessidade de procurar um noivo para sua filha; desde a infância de Paulina e Roberto havia como que um compromisso tácito entre ele e os pais de Roberto, seus parentes e vizinhos, um projeto de família para casá-los, caso não aparecesse algum ulterior obstáculo; não tinha mais, pois, do que abreviar um negócio, que já estava meio conchavado. Roberto, apesar de sua simplicidade e rudeza era bom moço, bem apessoado, e tinha um excelente coração; aquelas maneiras broncas e asselvajadas eram efeito da educação, e facilmente as iria perdendo com o traquejo do mundo. Este casamento ele o proporia também a Paulina como um ponto de honra, como um compromisso, a que nem ele nem ela poderiam faltar sem quebra de sua lealdade.
Logo no dia seguinte ao em que concebeu aquele projeto, Joaquim Ribeiro procurou sua filha para lhe comunicar sua resolução, disposto a empregar todos os meios, até mesmo a autoridade paterna para induzi-la a dar esse passo. Não foi preciso tanto; Paulina relutou muito, porém não tanto quanto ele receava.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.