Por José de Alencar (1864)
Repeliu-me logo. Ouvindo o ai que soltaram seus lábios, arranquei o lenço arrebatadamente, e surpreendi seu olhar... Que olhar, meu Deus!... A voragem de uma alma revolta pela paixão, e abrindo-se para tragar a vítima! Mas foi tão instantâneo, que eu não posso afirmar que vi. Já ela se tinha afastado bruscamente dilacerando entre os dedos os renovos das plantas, que sua mão trêmula encontrava na passagem.
O capuz lhe descera, deixando a cabeça exposta à chuva e à brisa cortante.
Depois de algumas voltas pelo jardim voltou calma, serena e risonha; dirigiu-se à porta, indicando-me com um aceno gracioso que a seguisse. Na sala de jantar onde entramos, estava uma cafeteira; ela encheu uma xícara e bebeu dous ou três goles frios e sem açúcar.
—Ah! Aqui é o gabinete, onde se estuda! disse parando no lumiar. Pode-se entrar? Eu tinha vergonha da minha modesta habitação, que não era digna daquela honra. Confuso, acompanhava quase como um autômato a ela, que vagava de um para outro lado, naturalmente, sem o menor vexame. Meu gabinete de trabalho era nesse tempo muito pobre; o que havia de melhor estava na cidade. Emília correu a estante com os olhos, lendo o título das poucas obras literárias, com esse tom afetuoso com que saudamos antigos amigos.
—O senhor nunca fez versos? —Quem é que não os fez aos dezoito anos? —Eu!... Tenho dezoito anos e nunca fiz um só.
—Inspira-os, que é melhor.
—Obrigada! Já lhe inspirei alguns? —A senhora... D. Emília?...
—A senhora... Por que não me chama Mila? É como me tratam os que me querem bem.
—E Mila chamará Augusto? —Está entendido! Não é como lhe chamam seus amigos? —Meus amigos me tratam por tu; disse eu sorrindo.
—Isso não! Quando eu disser tu, é porque não existe mais eu em mim. Porém responda! Já lhe inspirei algum verso?...
—Quantos, meu Deus! —Mostre-me! Quero ver! —Mas eu não escrevi! Para quê? Eles não diriam tudo que eu sinto.
—Pois agora há de escrevê-los para mim, sim, Augusto? —Não, Mila. Eu já não sei, ou antes nunca soube fazer versos.
Quando se começa a vida, sente-se essa veleidade; é natural. É o tempo das flores, dos sorrisos e dos cantos. Isso passa.
—Mas por que não há de escrever ainda? Se não quer ser poeta, seja escritor. Não tem ambições? Não ama a glória? —Amo; a glória da minha profissão, a única a que devo e posso hoje aspirar. É uma glória obscura e desconhecida, bem sei. Nossos triunfos, não os obtemos na praça ou no teatro, diante da multidão que aplaude; mas lá, no recôndito de uma casa, no aposento silencioso, onde geme a criatura. Só Deus os contempla, só ele os recompensa. O mundo e aqueles mesmos a quem salvamos, nos pagam, mas nem nos agradecem às vezes. Foi a natureza, dizem eles, Mas os reveses, esses pesam sobre nós. É uma glória amarga, Emília, a que me coube em partilha.
—Quem lhe impede de aspirar a outras? —A minha consciência. Quando me dediquei à medicina não busquei só um meio de vida, votei-me a um sacerdócio. Sinto que a minha aptidão é essa; fugir a ela fora mentir à, minha missão neste mundo.
—Tem razão! A verdadeira glória deve de ser essa; fazer o bem.
Eu é que sou uma louca! Mas já gostava da medicina; agora vou gostar ainda mais.
E para confirmar seu dito, Emília começou a examinar os instrumentos e livros com uma travessura infantil, roçando por eles de leve a ponta dos dedos, como se os acariciasse. O acaso deparou-lhe um atlas de anatomia; pousando então a ponta da unha rosada sobre o título, voltou-se para mim sorrindo:
—Quero ver o coração! Onde está? E afastou-se enquanto eu folheava o atlas para mostrar-lhe a estampa que ela pedira. Esteve a olhar muito tempo; afinal murmurou:
—Quando eu morrer, Augusto, há, de examinar o meu... Para ver se é diferente! —Que idéia!... Deixe isso, Mila! retorqui fechando os livros e instrumentos nos armários. Sinto não ter em minha casa objetos mais alegres para distraí-la. A minha profissão é triste, já lhe disse, bem triste! Vive das misérias do próximo. Suas alegrias são sempre travadas de dores!... Afinal nos habituamos. Mas enquanto não chega essa indiferença, que dúvidas! E quando chega, que aridez! Por isso, Emília, eu sinto a necessidade de um santo amor, que me proteja contra a descrença, e me preserve a alma desse terrível contágio do materialismo.
Emília me ouvira comovida. Ergueu-me a fronte, para que eu recebesse o meigo sorriso, cheio de ternura, que ela me queria embeber n'alma.
—O que lhe disse eu naquela noite?... Espere! Talvez não espere muito tempo! Envolvendo-se na sua capa, fugiu por entre as árvores.
Depois dessas mútuas expansões e das nossas entrevistas solitá,rias, depois sobretudo da promessa que ela me fizera partindo, parecia natural que eu fosse crescendo na afeição de Emília; porém esta moça era cada vez mais incompreensível. Os dias que seguiram tratou-me com bastante frieza: e uma tarde com desdém até.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.