Por José de Alencar (1870)
— Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda; cuidam que todas as moças andam morrendo por eles, e que a dificuldade está somente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horácio me julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, a pensar bem durante quinze dias, antes de dar a resposta.
— Portanto esta carta não serve, disse o Sales com um suspiro.
— Há de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer unicamente, que tendo-me consultado, eu pedi algum tempo para dar a resposta.
— O negociante escreveu, e Amélia esperou até que partiu a carta, confiada a um criado.
Momentos depois, Sales saía para a cidade, e Amélia entrava em sua alcova, descantando trechos de árias e romances. Não se podia dizer que estivesse alegre, apesar do tom garrido com que modulava, e do fresco riso que trinava em seus lábios.
O que ela sentia era um alvoroço íntimo, uma sôfrega agitação, estado indefinível d'alma prurida por mil desejos e contida por mil receios.
Vejamos se é possível descobrir o que passava ali, dentro daquele seio mimoso.
Desvanecida a primeira comoção produzida pela carta de Horácio, Amélia recordara-se do que tinha ocorrido na véspera, e sobretudo das palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era natural.
— Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que não basta ser meu marido para ver...
Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai e adiou a resposta definitiva. Voltando, sentiu lá num cantinho do coração uns receios que estavam nascendo. Não fosse Horácio zangar-se com a demoras e retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem demais.
Eis qual era o estado de animo de Amélia: orgulho de ver subjugado a seus pés o rei da moda; prazer de o ter cativo de uma palavra sua durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia acontecer; gozo da ventura que sorria; tais foram os sentimentos desencontrados que vibraram na alma da moça.
Nessa tarde Amélia preparou-se com maior esmero do que se fosse a um baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azuis, tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compor um traje suntuoso.
Ela esperava Horácio.
Toda a noite passou, indo do sofá à janela, e da janela ao consolo, onde estava a pêndula de alabastro.
As horas se escoaram, sem que o tílburi do moço parasse à porta do negociante.
No dia seguinte, Amélia perguntou ao criado se a carta fora entregue a Horácio
— Entreguei em mão, quando entrava no tílburi.
— E que disse ele?
— Nada; leu e riu-se.
— Ah! ele riu-se, murmurou Amélia consigo. Pois eu lhe mostrarei.
Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvaneceram. Estava decidida a não ceder. Horácio depois de vencido tentava ainda resistir-lhe? Pois havia de subjugá-lo completamente.
À noite foi à casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do costume. Leopoldo ali se achava também e cumprimentou-a com um modo triste e resignado.
Deve existir urna corrente magnética entre os homens, um fluido que serve de veículo ao pensamento recôndito e ainda não divulgado. Não se explicam de outro modo certas revelações de um fato somente conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que desperta esse fato n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e produz uma espécie de intuição.
Na casa de D. Clementina sabia-se já que Amélia fora pedida em casamento, embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não ser conhecido das pessoas presentes. Sales Pereira, a mulher e a filha não tinham dito a menor palavra sobre o objeto da carta de Horácio; mas a impressão produzida por essa carta, a preocupação que deixara nas pessoas da família, as conversas íntimas e recatadas, não escaparam aos escravos.
Daí gerou-se o boato, que já tinha passado à casa de D. Clementina.
— Ah! chegou a Amélia Sales! Sabia que vai casar-se? Já foi pedida, disse uma senhora a Leopoldo.
— Não, senhora, não sabia, respondeu o moço com mágoa, mas sem perturbar-se.
— Com quem? perguntou outra moça.
— Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me lembro.
Nisso Amélia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e conhecidas.
As alusões e gracejos a respeito do segredo incomodaram a moça, embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.
Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amélia para lhe pedir uma contradança. Tinham dançado a primeira marca sem trocar palavra; afinal o mancebo rompeu o silêncio:
— É verdade que foi pedida em casamento?
Amélia empalideceu; quis disfarçar iludindo a pergunta, mas encontrou o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a enganá-lo.
— É verdade, murmurou em voz quase imperceptível. Mas ainda não respondi.
— Estimo que seja muito feliz.
— Obrigada.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.