Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Silêncio, minha tia; façam o que disse: resistam ambas: não vão para a chácara... mas... segredo: volte para o seu quarto e leve consigo Corina... depressa... não me convém que nos achem conversando...
Suzana Por que tem medo de fazer o bem?...
Teod.
Oh! depois direi, confessarei tudo: retirem-se... depressa... já sinto passos. Deixem-me só...
Corina Tia Suzana! vamos... (levando-a)
Suzana (indo e apontando para Teod.) Ali também há pecado, Corina!... (vão-se)
Teod.
(caindo em uma cadeira) Ah!... (levanta-se risonha à chegada dos que entram)
Cena 3ª
Teodora: Júlia: Teóf.: Carlos: Firmino
Firmino (a Teodora) Eu saí por uma porta e tu entraste por outra.
Teod.
A procurar-me?... Foi o que me aconteceu, procurando-te: quando entrei por uma porta, tinhas saído pela outra.
Firmino Ao menos voltaram mais cedo do que eu esperava e com o melhor dos nossos amigos.
Teod.
E apanhado por feliz acaso: está escrito que Júlia é a mais ditosa das criaturas. (sentam-se)
Júlia
Nem tanto; pois que a minha companhia não pode vencer de todo a preocupação amarga do senhor Teófilo.
Teóf.
Eu protesto: trazia sobre o coração o peso de grande desgosto e quase que o esqueci, achando-me a seu lado...
Júlia Devo perdoar-lhe o quase?...
Teóf.
Deve; porque o desgosto era profundo, e o seu prestígio fez-me alegre...
Júlia Oh, não! O seu olhar e a sua voz foram os bálsamos milagrosos que me curaram a ferida: a sua virtude e consolação angélica que me afoga a lembrança de uma ação indigna de um atentado horrível, que embora me sejam estranhos, abriga a minha reprovação e o meu aborrecimento.
Firmino Um segredo?...
Teóf.
Que não é meu, e que posso docemente esquecê-lo aqui.
Firmino Santas palavras! Janta hoje conosco?
Júlia Janta, sim: e eu hei de obrigá-lo a não pensar mais nesse ruim segredo: serei capaz de conseguílo?
Teóf.
Pergunta se pode fazer o milagre depois de tê-lo feito? O que de resto me preocupa é o meio de vê-la aflita por sua vez.
Júlia Como? Por que?...
Teóf.
Porque se chegar a saber do que se sabe, há de revoltar-se ainda mais do que eu...
Teod.
Algum fato escandaloso...
Júlia Nada há de triste ou de desairoso que possa ter comigo relação...
Teóf.
Oh, certamente; mas os corações generosos choram os males, os martírios alheios como se fossem próprios.
Júlia Os martírios!!!
Cena 4ª
Teod: Júlia: Firmino: Carlos: Teófilo: e um criado que traz uma carta
Criado Pelo correio urbano uma carta para sr.ª Suzana. (Teófilo e Júlia conversam)
Teod.
Uma carta para minha tia!... Que novidade!...
Firmino (tomando a carta e a Teodora) Não conheço a letra do subscrito.
Teod.
Nem eu.
Firmino (a Teod.) Desconfio desta carta: não a devemos entregar.
Teod.
(a Firmino) Cuidado! Teófilo está presente e talvez nos observe... não seria bonito...
Firmino (ao criado) Leva a carta à sr.ª d. Suzana. (vai-se o criado) É a primeira vez que a nossa velha tia recebe carta pelo correio... o fato nos tornou curiosos.
Teóf.
Ah!
Carlos D. Corina será a primeira a ler a carta; porque sempre que se acha com a tia Suzana é a sua leitora obrigada.
Teóf.
Então d. Corina vive confinada aos cuidados da sr.ª d. Suzana?
Teod.
Apenas quando saímos sem ela: fora desses casos vive sempre com Júlia, de quem nunca se separa.
Teóf.
Perdão... escapou-me uma pergunta indiscreta.
Firmino Oh, não houve indiscrição... (conversa com Teodora)
Júlia Pergunte-me tudo: desejo e estimo que conheça toda a nossa vida.
Teóf.
(baixo) Deveras d. Corina é aqui sua companheira inseparável?
Júlia De dia sempre juntas estudando ou brincando; à noite dormimos na mesma sala.
Teóf.
E que pensa de d. Corina?...
Júlia É tão bonita, como boa.
Teóf.
(baixo e sério) Em tudo soa igual?
Júlia (estremecendo de leve) Senhor! Tão pura como eu.
Corina
(dentro, grito pungente) Oh!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.