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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Sim... um belo divertimento...

— Mas que é isso? Está tão pálido!

— Não é coisa de cuidado... Eu... ora... o estudante...

— É por certo um famoso pateta...

— Não é bom ir tão longe...

— Não tem dúvida… é um tolo rematado.

— Fale-me a verdade: eu acho aquela moça com cara de ser sua prima.

— Quem lhe disse?... E, com efeito, minha prima!

— Pois vamos à minha casa.

— E a sua amada?...

— Não me fale mais nela.

Apenas chegamos à minha casa, abri uma gaveta, e tirando dela todas as cartas que Jorge havia escrito à sua prima, e que ela me tinha mandado, assim como as normas que eu redigira para as que deveriam ser enviadas ao meu amigo, acrescentando:

— Concordemos ambos que, se o estudante foi um famoso pateta e um tolo rematado, não o foi menos o primo daquela senhora a quem cortejamos na rua de... Jorge devorou todas as cartas e normas que lhe dei; depois desatou a rir e, abraçando-me, exclamou:

— Concordemos também, caro estudante, que minha prima tem bastante habilidade para se corresponder com meio mundo, sem se incomodar com o trabalho da redação de suas cartas!

O bom humor de Jorge tornou-me alegre. Jantamos juntos, rimo-nos todo o dia, e só de noite se retirou.

Tratei de dormir, mas, antes de adormecer, falei ainda comigo mesmo: juro que não hei de amar a moça nenhuma de cor pálida.

Desde então declarei guerra ao amor, minha senhora; tornei-me ao que era dantes, isto é, ocupei-me somente em me lembrar de minha mulher e em beijar o meu breve.

Mas eu andava triste e abatido e às vezes pensava assim: ora, pois jurei não amar moça nenhuma que fosse morena, corada ou pálida: estas são as cores, estes são os tipos da beleza... e, portanto, minha mulher terá, a pesar meu, uma das tais cores; logo não me caso com minha mulher e, em última conclusão, serei celibatário; vou ser frade... frade!

Minha tristeza, meu abatimento deu nos olhos da digna, jovial e espirituosa esposa de um de meus bons amigos. Ela me pediu que lhe confiasse as minhas penas e eu não pude deixar de relatar estes três fatos à consorte de um caro amigo. A única consolação que tive foi vê-la correr para o piano, e ouvi-la cantar as seguintes e outras quadrinhas musicadas no gosto nacional.

I

Menina solteira

Que almeja casar

Não caia em amar

A homem algum;

Nem se/a notável

Por sua esquivança,

Não tire a esperança

De amante nenhum.

II

Mereçam-lhe todos

Olhares ardentes,

Suspiros ferventes

Bem pode soltar:

Não negue a nenhum

Protestos de amor;

A qualquer que for

O pode jurar.

III

Os velhos não devem

Formar exceção,

Porquanto eles são

Um grande partido;

Que, em falta de moço

Que fortuna faça,

Nunca foi desgraça

Um velho marido.

IV

Ciúmes e zelos,

Amor e ternura

Não será loucura

Fingida estudar;

Assim ganhar tudo

Moças se tem vis/o,

Serve muito isto

Antes de casar.

V

Contra os ardilosos

Oponha seu brio:

Tenha sangue frio

Pra saber fugir;

Eu, todos os casos

Sempre deve estar

Pronta pra chorar,

Pronta para rir.

VI

Pode bem a moça,

Assim praticando,.

Dos homens zombando,

A vida passar;

Mas, se aparecer

Algum toleirão,

Sem mais reflexão,

É logo casar.

— Então o negócio é assim, minha senhora? exclamei eu, ao vê-la levantarse do piano.

— Certamente, me respondeu ela; é este, pouco mais ou menos, o breviário por onde reza a totalidade das moças.

— Fico-lhe extremamente agradecido pelo desengano.

— Estimo que lhe sirva de muito.



(continua...)

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