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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

– Eu rogo a V. Exª o favor de um momento, um momento só. V. Exª é muito cristã para me condenar sem me ouvir. Direi só a V. Exª crê V. Exª que eu viria a uma casa, a casa de V. Exª, que eu respeito, que sempre respeitei como uma das senhoras mais virtuosas de Lisboa, um modelo de qualidades cristãs, um anjo de caridade, uma mãe exemplar – que eu viria de caso pensado afrontar os princípios mais sagrados – princípios que são os meus? V. Exª responda a isto. Eu peço a V. Exª que responda a isto.

– Foi justamente por isso, Sr. Alípio, que me escandalizei...

– Que V. Exª considere. Pedem-me para recitar. Para ser agradável...

D. Casimira Vitorino, que estava ao lado, hirta, sinistra e enrugada, interrompeu:

– Escusava, para ser agradável, de se pôr a dizer porcarias.

– O Srª D. Casimira, ó minhas senhoras, por quem são! V. Ex.as bem vêem... Os Ciúmes do Céu, são uma poesia conhecida, considerada pela melhor crítica como uma magnífica peça lírica... Refiro-me à forma. O assunto, confesso, é torpe, é infame... Mas, quando se recita, é para se apreciar a forma. E como uma música ao ouvido... Eu não sei outra poesia de cor... Não me lembrei, de repente, daquela abjecta cena no areal... Depois, levado pelo fogo da declamação... Mas acreditem V. Ex.as que compreendo a sua desaprovação, acuso-me, quero-me mal por a ter recitado – como além disso se recita em casas muito respeitáveis... Mas confesso que o assunto é torpe... V. Exª não me conhecem – mas o Dr. Vaz Correia conhece os meus princípios morais, o meu horror à devassidão, a minha indignação com todos os casos de infidelidade conjugal, enfim, as minhas convicções. Apelo para ele...

E sem esperar a resposta, curvando-se profundamente, afastou-se, atravessou a sala, indo encalhar junto da mesa do voltarete.

– Frescalhotes, os versos – disse-lhe o Conselheiro Andrade.

Alípio acudiu:

– Oh! Sr. Conselheiro, nem me fale nisso! Que desgosto... Eu não imaginei...

– Qual história! Eu, não me pareceu bem por causa das pequenas, mas cá por mim, gosto de versinhos picantes... Lembra-se do Bocage? Sete vezes amor voltou, é... O quê, três matadores? O amigo Torres, o senhor muda-lhes as cores, com certeza!

No entanto Alípio, da mesa do voltarete, seguia os movimentos do padre Augusto; vira-o erguer-se pesadamente da cadeira, ir fazer uma cócega no pescoço da Julinha; depois, com as mãos por baixo das abas do casaco, fazendo-as saltar, conversar, curvado, com a bela Fradinho: finalmente, devagar, ir para a Saleta dos Fumistas. Alípio precipitou-se logo, e dirigindo-se vivamente a ele:

– Ó Sr. Padre Augusto, eu, sem ter a honra de conhecer V. Exª, venho pedir-lhe um favor. V. Exª é um sacerdote de grande ilustração, de grande virtude, de grande eloquência, e deve compreender a minha situação. Eu, pediram-me para recitar...

O padre Augusto que conservava uma das mãos com o cigarro por trás das costas, disse, raspando o queixo com a outra:

– Homem, ele não é lá por dizer... Mas olhe que os versos são de arrepiar... Eu estava a vê-los diante de mim, no areal, a mulher deitada, o homem... Ó senhor doutor!... – Mas V. Exª sabe o que é poesia: questão de imaginação, de exageração!

– Mas é que realmente está a gente a vê-los. È que se me não tira o quadro dos olhos! A mulher toda desapertada... Foi um desgosto para a Srª D. Laura. E se V. Exª soubesse com que cuidado, com que recato tem sido educada a Virgininha. E a primeira que ela ouve... É a primeira – e é de mão-cheia!

– Pois Sr. Padre Augusto, V. Exª é um sacerdote, e eu, acredite, tenho pelo clero o respeito mais profundo. Verdadeiramente, curvo-me diante de V. Exª porque tem experiência, e sei que virtude, que saber, que dedicação se escondem debaixo de uma batina modesta... E realmente o que eu desejo é que V. Exª seja verdadeiramente um sacerdote cristão. Isto é, que restabeleça a harmonia e que dissipe a irritação da Srª D. Laura. Eu já lhe expliquei, já lhe supliquei... Mas fi-lo a tartamudear... A sua virtude inspira-me um respeito! Desejo que V. Exª a convença de que eu, foi na minha boa fé, na minha inocência, por estupidez – aí está o que foi – por estupidez, sem reparar, que comecei a recitar... E aqui lho digo em segredo, suprimi várias estrofes, as piores! Lembrei-me a tempo... V. Exª faça-me isto. Não Lhe ofereço a minha dedicação, porque ela lhe é inútil; mas se, como advogado, como jornalista, como homem, como crente, puder um dia ser-lhe prestável, é dizer: – aqui, Alípio! – e Alípio lá estará, ao pé de V. Exª.

– Ó senhor, muito obrigado, muito obrigado! Não é para tanto. Deixe estar que eu falarei a D. Laura. Eu falarei. Há-de se arranjar... Há-de ficar tudo em paz.

– Agradeço muito a V. Exª – disse Alípio; e ia a retirar-se quando a voz do padre Augusto o chamou com um psiu! discreto.

(continua...)

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