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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

O mascarado alto, com quem tive ocasião de falar por mais tempo, não pode ser um assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo connosco, não pôde atentar nos indivíduosque o rodeavam. Ouviu apenas uma frase, que para mim próprio é ainda inexplicá vel e terrível, e baseou nela a sua indignação e o seu ódio.Eu tratei apenas com um desses homens — o mais alto — mas com este falei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da fisionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, cintilantes. Ouvia-lhe a voz metálica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na mo dulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos.

Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos incidentesque acompanharam o inquérito de A. M. C., es cutei-lhe sempre com interesse, com simpatia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, fácil, despresumida, espontânea, original, pitoresca sem literatismo, eloquente sem propósitos ora tórios — límpido espelho de umaalma enérgica, integra, perspicaz e sensível. Tinha arrebatamentos, indignações convictas, concentrações melancólicas, que se via provirem desse fundo de lágrimas, que todas asnaturezas privilegiadamente boas e honestas têm no Intimo da sua essência. Pareceu-me, finalmente, um coração leal e honrado, e não é fácil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquela em que nos achámos, um homem com aminha experiência do mundo e a minha prática dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principais considerações que do princípio logo me impediram de tornar públicoo nome do meu amigo violentamente retido em cárcere privado. F.. é um homem conhecido, é quase um homem célebre; em Lisboa ninguém há que não conheça o seu nome entre os escritores mais aplaudidos, ninguém que não distinga a sua figura alti va, esmerada, picante,entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos teatros.

Se eu comunicasse à polícia o desaparecimento do meu amigo, é quase seguro que elaencontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto denunciar simultaneamente como criminosos O mascarado alto e os seus companheiros, que eu todavia considero inocentes?

A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desa parecimento das 2300libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.

Na carta de F... encontra-se o seguinte período: «Ocorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era efec tivamente ou se não eraum amigo íntimo que eu tinha ao meu la do: arrancar-lhe o relógio: bastar-me-ia apalpá-lo, ainda como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o indivíduo que eu supunha, a caixa dorelógio teria a lisura do esmalte e no centro a saliência de um brasão.»

Ora o relógio a que nestas linhas se alude, se bem lembrado está, é exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periódico, o mesmo que usava omascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fora da algibeira do colete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... aoquarto em que ele se acha preso, é efectivamente um amigo dele, intimo e particular.

Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebre cerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar à polícia uma particularidade, um nome, umacircunstância positiva, que a ponha no encalço deste crime e no descobrimento das pessoas, inocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em tor no dele?As mesmas notícias que lhe tenho dado, as cartas que preci pitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anónimo, me vejo na obrigação moral de concluir e de senlaçar, não serão já perante a severidade incorruptível, despreo cupada e friados homens de bem, uma traição aos imprescritíveis deveres da amizade, um agravo à inviolabilidade do sigilo, uma ofensa a esse culto intimo que se baseia na delicadeza, nomelindre, no primor — culto que para as almas honradas constitui uma parte dos princípios supremos da primeira das religiões — a religião do carácter?

Mas podia também calar-me? Ficar mudo, impassível, inerte, neutro, diante destesucesso obscuro mas tremendo? Podia acaso aceitar na impassibilidade e no silêncio a responsabilidade terrível de um homicídio tenebroso, do qual sou eu a única testemunha cominiciativa, com liberdade, com faculdade de acção?...

Decidam-no as pessoas que por um momento quiserem imagi nar-se nas circunstâncias excepcionais e únicas em que eu estou. Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstáculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um único momento que perder, uma só coisa me ocorreu, possível, clara, solvente: publicar anonimamente o que mesucedera, entregar por este modo à sociedade a história da minha situação e esperar dos outros, do público, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.



(continua...)

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