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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

O encanto porém quebrara-se, e uma semana depois, ia descendo a Calçada do Correio, avistou-a que subia, com a irmã. Foi a mesma perturbação, o mesmo embaraça, a mesma idéia absurda de se esconder aos pulos, decidiu-se ao encontro: afirmou o passo, deu um leve puxão aos punhos, aprumou-se, marchou. E pelo canto do olho, tremendo todo, viu-a baixar os olhos e corar, perturbada também.

Foi para casa num extraordinário estado de exaltação. Sentia que a adorava, e o coração desfalecia-lhe à idéia deliciosa de a apertar outra vez nos braços. E ao mesmo tempo era um ciúme furioso e vago, ciúme dos outros homens, da rua, dos passos que ela dava, das palavras que poderia dizer a outros, dos olhares que poderia dar a outros. Queria-a para si, ali, debaixo de chave, entre aquelas paredes que eram suas, na prisão dos seus braços. E não pôde parar, em casa, saiu era quase meia-noite, foi olhar as janelas do Neto. Depois voltou, escreveu-lhe uma carta absurda, seis páginas de paixão a que se misturavam ainda acusações. Rasgou-a, ao relê-la, achando-lhe muitas palavras e insuficientemente amorosa. Não dormiu nessa noite. Via constantemente a sua bela face corar, as pálpebras baixarem-se-lhe. E estava como disse o Neto, mais cheia, mais bela. Oh, que mulher divina! E era sua, a sua mulher! Positivamente aquilo não poderia durar, aquela vida infeliz e solitária!

Todo o janeiro passou sem ele a tornar a ver – e a sua paixão crescia. Agora esperava um acaso que os ligasse; cada manhã imaginava que o dia não se passaria sem ele a ver, e estava decidido a falar-lhe. Uma vez já encontrando o

Neto, falara vagamente nos inconvenientes daquela separação. O Neto encolhera os ombros, com um ar de melancolia e de dor paternal. Era bem triste, mas que se havia de fazer? Depois, uma noite no Murtinho tornou a falar-lhe. E o Neto disse que refletira, e que estava decidido a ir fazer com a filha uma viajata até o Minho, para evitar falatórios. Godofredo ficou assombrado, não se conteve:

— Mas não há-de ser à minha custa.

E voltou-lhe as costas, veio para casa furioso. Eram sete horas da noite, e havia um luar claro e frio. Ele chegava à sua porta, quando deu de rosto no passeio com Ludovina, que recolhia, acompanhada pela irmã. Instintivamente, desceu vivamente do passeio, afastou-se; mas logo voltou, com uma inspiração, apressou, chamou:

— Ludovina!

Ela parara, voltou-se, espantada. Estavam junto duma loja de mercearia, na luz do gás, e ficaram um defronte do outro, sem achar uma palavra, enleados, com todo o sangue nas faces. Godofredo estava tão perturbado que nem cumprimentou a cunhada, nem sequer a viu. E as suas primeiras palavras foram absurdas.

— Então diz que vais para o Minho?

E ele, numa voz atrapalhada:

Ludovina olhou-o espantada, depois olhou para a irmã.

— Para o Minho? – murmurou.

E ele, numa voz atrapalhada:

— Disse-me teu pai... Eu achei que era a coisa mais ridícula!... Oh, Teresinha, desculpe, que a não tinha visto... Tem passado Bem? E então tu, Ludovina, tens passado bem?

Ela encolheu os ombros:

— Assim, assim...

Ele devorava-a com os olhos, achando-a adorável, naquela capa de veludo que ele lhe não conhecia, e que devia ser nova.

— Diz que te divertisse muito.

Ela teve um sorriso amargo:

— Eu? Boa... – E acrescentou com um vago suspiro: - O que me tenho é aborrecido e chorado.

Um amor, uma piedade imensa invadiu-o E com a voz trêmula, quase chorando:

— Ora essa, ora essa...

Depois, acrescentou ao acaso, já num tom de intimidade, como se desde esse momento a reconciliação estivesse feita:

— Pois aquilo lá em casa não vai bem... A Margarida tem-se desleixado muito. E é verdade, que te queria perguntar... Como diabo se acende o candeeiro de escrever, que não tem sido possível pô-lo em ordem?

Era riu, Teresa também. Ela tinha percebido bem, de ora em diante era outra vez a mulher de Godofredo. Disse:

— Se queres eu lá vou ensinar a Margarida a arranjar isso.

Todo ele foi um grito de alegria:

— Pois vem, pois vem! A Teresinha pode vir também. É um instante.

E subiu adiante, galgou a escada, abriu a porta, desfalecendo de voluptuosidade ao ouvir o rumor das sais dela pela escada acima. Ouvindo vozes, Margarida tinha corrido, e ao avistar as senhoras ficou embatucada.

—Traga cá esse candeeiro de escrever... – gritava atarantadamente Godofredo.

Ludovina e a irmã tinham penetrado na sala de jantar e conservavam-se de pé, de chapéu, com as mãos nos regalos. Godofredo, no entanto, como parvo, correra à cozinha, depois entrara no quarto, depois precipitara-se a acender as luzes da sala das visitas, onde não havia gás. Ludovina no entanto olhava a sala de jantar, o aparador, escandalizada já daquele desleixo que ali se sentia – parando a contemplar indignada uma linda fruteira de cristal que tinha uma asa quebrada. Godofredo veio encontrá-la assim.

— Ai, isso vai aí uma destruição que nem tu imaginas. Olha, vem cá dentro, vem ver, vem cá ao nosso quarto.

(continua...)

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