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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Lá estava, entre as palmeiras, o repuxo cantando, em fios d'água, a monótona balada das fontes; ouvia-se, de longe, o ruidozinho da água a esguichar, caindo em arcos para um e outro lado e confundindo-se quase com o nostálgico farfalho das árvores. O sol, brando e macio, erguia-se lento, sobredoirando as eminências, pouco a pouco iluminando a espessura do arvoredo e a larga extensão verde que enchia bruscamente os olhos encantados de Adelaide como um sonho de glória e bemaventurança. Respirava-se a frescura das plantas e o aroma fino das trombetas e das rosas, a essência matinal das grandes árvores e dos pequenos vegetais que acordavam à vida num banho morno de luz. Pompeavam estranhas florações no recesso da mata e um hino misterioso parecia levantar-se da natureza ao astro fecundante que ressurgia com o seu esplendor incomparável de rei absoluto.

Vinham chegando outras famílias, outros casais, outros grupos, que logo se perdiam no emaranhado das aléias laterais, e em todas as fisionomias brilhava uma satisfação íntima, um como prazer novo e especial, um reflexo de imortalidade astral.

O visconde parou no chafariz. Todos pararam no chafariz.

— É realmente belo! — exclamou o bacharel com os olhos erguidos em êxtase para a copa das palmeiras.

— A Tijuca é mais solene... — observou circunspecto o visconde.

— O barulho da cascata é como se a gente estivesse num ermo religioso... no meio de um deserto... muito longe... . muitíssimo longe...

— Oh, então deve ser triste demais... - argumentou o marido de Adelaide.

— Como triste? É encantador! é poético!

— Falta aqui o Dr. Condicional para dizer que lembra o Evangelho na selva... — insinuou o amigo de Furtado.

O visconde achou graça, e, desdenhoso, carregando a esposa do secretário:

— Um petit-maitre, o tal Manhães!

Todos riram, inclusive o Raul que perguntou à mamãe o que era petit-maitre.

Escolhido o local para o piquenique, sob um caramanchão agreste de parasitas imitando a entrada de um túnel e onde havia uma grosseira mesa de pedra, nos fundos do jardim, o bacharel propôs uma volta, uma grande volta "para abrir o apetite".

Ninguém discordou da idéia. O Antônio ficava botando sentido à comida. (Antônio era o criado do secretário.)

— Um vermutezinho não é mau antes do almoço, oh, visconde... - lembrou Furtado.

— Vá lá um vermute.

— Já tão cedo! - exclamou Adelaide.

— Pois então!... - fez D. Branca.

— Cedo para preparar o estômago - replicou o banqueiro. — Ah!...

O próprio Furtado tirou da cesta cálices, uma garrafa intacta que o Antônio abriu com estampido, e bebericaram.

— Agora, toca!

E marcharam, ora a dois e dois, ora a três e três, por entre os tufos verdejantes, papagueando e rindo, num começo de liberdade familiar. Aves ariscas voavam pressentindo-os; pipilavam ninhos na frondosa espessura das ramagens; estridulavam cigarras em desafio, numa orquestração aguda e uníssona.

Evaristo, no meio de toda aquela paisagem tropical, de uma riqueza encantadora, lembrou-se da província, e, num tom solene e misterioso, recitou descobrindo a cabeça e estacando:

— Solidão, eu te saúdo! Silêncio do bosque, salve!

Lera isso há muito num clássico português e nunca um pensamento alheio fora tão bem empregado!

— Olhe, D. Adelaide, como se deita a perder um homem — gracejou o secretário.

Adelaide sorriu.

— Vocês é porque não sabem glorificar a natureza, vocês é porque não lêem os clássicos! - replicou o bacharel.

— Mas não te lembras do resto.

— Como não me lembro, se é uma das páginas que eu nunca hei de esquecer?

E o bacharel, sem receio de escandalizar o aprumo do Santa Quitéria, berrou para o alto, como se falasse às nuvens:

— Solidão, eu te saúdo! Silêncio do bosque, salve! A ti venho, oh natureza; abre-me o teu seio. Venho depor nele o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida!. .. Os homens não me deixam; amparai-me vós, solidões amenas, abrigai-me, oh solidões deleitosas.

— Onde queres tu chegar com essa desfruteira, oh Evaristo? - interrompeu o outro.

— Quero chegar ao fim da página...

— Olha que isso é um desrespeito ao visconde! - segredou Adelaide.

O banqueiro, porém, havia-se destacado um pouco e marchava com D. Branca, sem se incomodar, no seu passo lento de garça real. Atrás vinham as outras pessoas. O secretário tinha absoluta confiança no visconde; até aborrecia-o dalgum modo a sisudez, a gravidade patriarcal do celibatário. A Branca ia muito bem na companhia dele, do Santa Quitéria.

Este, enquanto o bacharel discursava e vendo-se longe de ouvidos perigosos, abriu válvulas ao coração, baixinho e disfarçadamente.

— Creio que não a posso esquecer; acordo e deito-me pensando no nosso grande amor... Imagine se estivéssemos sós aqui. — Oh!...

Mas deixe estar que ainda havemos de ser muito felizes... muito felizes.

— Eu bem sei que me ama, bem sei, mas vi-o outro dia interessar-se tanto pela minha amiga Adelaide...

O capitalista sorriu benevolamente, como quem perdoa.

— Sua amiga Adelaide é uma criança... uma menina de ontem... e eu seria incapaz... Oh!... faça-me justiça...

— Eu não estou afirmando...

— Creia que não me preocupo com outra pessoa.

— E que tal a idéia do piquenique? Supus que não viesse...

(continua...)

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