Por Adolfo Caminha (1895)
Vinha amanhecendo quando o grumete, ainda bêbedo de sono, os olhos apertados, o passo leve, saiu direto ao Cais dos Mineiros. Estava muito pálido, com grandes olheiras, repetia maquinalmente: — Se Bom-Crioulo soubesse!... ao mesmo tempo que seu espírito voltava-se todo para o sobradinho da Rua da Misericórdia, onde aquela hora D. Carolina encharcava-se num magnífico banho frio de chuveiro.
— Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais, com aquele negro, ah! que felicidade! pensava o grumete aproximando-se de um grupo de marinheiros, perto do cais.
E a figura da portuguesa, muito gorda e risonha, os dentes muito alvos, os quadris largos, a face rubra, dançava em sua imaginação, como um sonho diabólico.
CAPÍTULO VII
Bom-Crioulo não estava satisfeito no couraçado, naquela formidável prisão de aço, que lhe consumia o tempo, e cuja disciplina — um horror de trabalho — privavao de ir à terra hoje sim, amanhã não, como nos outros navios, Ah! mil vezes a corveta. mil vezes! Ao menos tinha-se liberdade. Separado agora de Aleixo, vivendo no meio de toda gente desconhecida e sem amor, lembrava-se, com tristeza, da bela vida que passara em companhia do grumete: um ano quase de sossego e felicidade!... Era bem certo o ditado: não há bem que sempre dure...
Enchia-se ódio contra os superiores: — Uma cáfila! Todos a mesma cousa; faziam do pobre marinheiro um burro... Ninguém os entendia. — Revoltava-se principalmente contra o Quartel-General que o mandara passar da corveta para o couraçado. Não lhe custava nada ir ao ministro, contar uma história muito grande e pedir, inda que fosse de joelhos, outro embarque. Se duvidasse muito, baixava ao hospital, desertava, ia-se embora pelo mundo com o pequeno. Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...: “—... que os pariu!...”
Logo no primeiro dia teve o desgosto de ficar à bordo: seu nome fora recomendado ao imediato em bilhete especial: —“Muita cautela com o Amaro (BomCrioulo). É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas em chupando seu copito, guarda debaixo! faz um salseiro dos diabos”. Houve logo prevenção entre os oficiais.
— Era bom não o deixar ir à terra muitas vezes. Um homem daquele até metia medo!
E ficou assentado que ele só teria licença um vez por mês. Passou o primeiro dia, o segundo, o terceiro. O quarto era um sábado.
— Seu imediato, eu precisava ir à terra, implorou o negro perfilado, a mão em pala no boné.
— Ainda não, resmungou o oficial, sem prestar-lhe atenção. Quando chegar sua vez eu direi.
— Mas seu imediato...
— Já lhe disse, não me amole!
Bom-Crioulo retirou-se calado, o olhar no convés, mordiscando o beiço. Ia cheio de uma cólera muda. jurando vingança talvez... — Ah! era assim? calculava ele depois, na proa. Havia de mostrar...
E no dia seguinte pela manhã ofereceu-se ao guardião para remar no escaler que ia às compras. Embarcou, sem dar à perceber cálculo algum, e lá foi remando na voga, o boné carregado pra frente, muito sério, teso na sua bancada.
O domingo amanhecia esplêndido e preguiçoso numa soberba ostentação de azul, fresco e transparente. As montanhas da baía, o Pão d’Açúcar, os Órgãos, e, lá longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, desenhava-se na eternal limpidez do ar calmo, davam à vista uma doce impressão de aquarela.
Bela manhã para um bródio sobre a água. O vulto de um paquete alemão ia saindo barra fora, impassível e misterioso... O mastro do Castelo fazia sinais. Os navios de guerra pareciam dormitar ainda silencioso e imóveis. Era quase dia...
— Leva! manobrou o patrão do escaler. Tinham chegado ao cais. Os marinheiros, todos a um tempo, suspenderam os remos, arriando-os logo, com um movimento igual, dentro da embarcação.
Daí ao mercado era perto. Começaram a atracar os escaleres doutros navios. Pouco a pouco ia clareando... A praça, entretanto, permanecia quase deserta ainda; um ou outro galego, homem de ganho, vagava em torno dos quiosques.
Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de “fazer uma necessidade”, prometendo voltar logo.
— Era um pulo...
Enfiou pelo jardim que decorava o largo, e, uma vez fora da vista dos companheiros, estugou o passo em direção à Rua da Misericórdia, resmungando insultos que ninguém ouvia. A porta do sobradinho estava fechada. Bateu. D. Carolina ressonava. Tornou a bater, impaciente, dando fortes punhadas na porta.
O caixeiro da padaria defronte, veio espiar quem é que batia com todo aquele desespero.
— Quem havia de ser? Um negro!...
Afinal vieram abrir: um senhor de longas barbas, obeso, em suspensórios, com cara de réu, e que se afastou para deixar passar o marinheiro.
— Bom dia!
— Bom dia! correspondeu o barbaças.
— Quem é? perguntou lá de cima a voz abafada da portuguesa.
— Sou eu, D. Carolina; desculpe a maçada.
— Ah! é o Bom-Crioulo? Que maçada o quê! Por aqui tão cedo? Ninguém o vê mais!... A chave está no prego!... — Obrigado...
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.