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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Eu estou certo, dizia o Berredo, convicto, de que as senhoras não lêem livros obscenos, mas refiro-me a estes romances sentimentais que as moças geralmente gostam de ler, umas historiazinhas fúteis de amores galantes, que não significam absolutamente coisa alguma e só servem de transtornar o espírito às incautas... Aposto em como quase todas as senhoras conhecem a Dama das camélias, a Lucíola...

Quase todas conheciam.

— ... Entretanto, rigorosamente, são péssimos exemplos...

Tomou um gole de água, e continuando:

— Nada! As moças devem ler somente o grande Júlio Verne, o propagandista das ciências. Comprem a Viagem ao centro da terra, Os filhos do capitão Grant e tantos outros romances úteis, e encontrarão neles alta soma de ensinamentos valiosos, de conhecimentos práticos...

O contínuo veio anunciar que estava terminada a hora.

Dias depois o Berredo lecionava, como de costume, a seu bel-prazer, derreado na larga cadeira de espaldar, quando o contínuo, fazendo uma mesura, anunciou “S. Exª. o Sr. Presidente da Província”, e imediatamente assomou à porta da sala o ilustre personagem, mostrando a esplêndida dentadura num sorriso fidalgo, com o peito da camisa deslumbrante de alvura, colarinhos muito altos e tesos, gravata de seda cor de creme onde reluzia uma ferradura de ouro polido, bigodes torcidos imperiosamente: um belíssimo tipo de sulista aristocrata. Estava um pouco queimado da viagem a Baturité.

O Berredo desceu logo do estrado a cumprimentá-lo com o seu característico aprumo de homem que viajara à Europa. Todas as alunas ergueram-se.

— Como passa V. Exª., bem? Estava agora mesmo...

O presidente pediu que não se incomodasse, que continuasse.

Acompanhavam-no, como sempre, o José Pereira e o Zuza.

Maria, ao dar com os olhos no estudante, ficou branca, um calafrio gelou-lhe a espinha, baixou a cabeça, fria, fria, como se estivesse diante dum juiz inflexível.

S. Exª. tomou assento entre o professor e o diretor. José Pereira e o Zuza sentaram-se nas extremidades da mesa.

As alunas tinham-se formalizado, muito respeitosas, imóveis quase, de livro aberto, com medo à chamada. Houve um silêncio.

— Pode continuar, disse o presidente para o Berredo. E este, inalterável:

— V. Exª. não deseja argumentar?...

— Não, não. Obrigado... — Neste caso...

E para as discípulas:

— Diga-me a Sra. D. Sofia de Oliveira, quantos são os pólos da terra? Veja como responde, é uma pequena recordação. Não se acanhe. Quantos são os pólos da Terra?

O Berredo lembrou-se de fazer uma ligeira recapitulação para dar idéia do adiantamento de suas alunas.

Sofia de Oliveira era uma pequerrucha de olhos acesos, morena, verdadeiro tipo de cearense: queixo fino, em ângulo agudo, fronte estreita, olhos negros e inteligentes.

— Quantos são os pólos da Terra? fez ela olhando para o teto como procurando a resposta, embatucada. — Os pólos?... Os pólos são quatro.

Risos.

— Quatro? Pelo amor de Deus! Tenha a bondade de nomeá-los. — Norte, sul, leste e oeste.

Nova hilaridade.

— Está acanhada, desculpou o Berredo voltando-se para o presidente. Até é uma das minhas melhores alunas. — Não confunda, tornou para a normalista. Olhe que são pólos e não pontos cardeais...

Outro disparate:

— Há uma infinidade de pólos...

— Ora!... Adiante, D. Maria do Carmo.

Maria estremeceu, embatucando também, sem dizer palavra, sufocada. A presença do Zuza anestesiava-a, incomodava-lhe atrozmente. Sob a pressão do olhar magnético do estudante, que a fixava, sua fisionomia transformou-se.

— Então, D. Maria?... Também está acanhada? — Passe adiante, pediu o Zuza compadecido.

Duas lágrimas rorejaram nas faces da normalista caindo com um sonzinho seco sobre a carteira. Estava numa de suas crises nervosas. Outras duas lágrimas acompanharam as primeiras, vieram outras, outras, e Maria, cobrindo o rosto com o seu lencinho de rendas, desatou a chorar escandalosamente.

— Sente-se incomodada? tornou o Berredo. D. Maria! Olhe... Tenha a bondade de levantar a cabeça...

— Está nervosa, disse o presidente com o seu belo ar de cético elegante. — Pudores de donzela, murmurou o diretor. Isto acontece...

O Berredo passou a mão no bigode, desapontado, e encontrando o olhar faiscante de Lídia:

— A senhora... Quantos são os pólos da Terra?

— Dois: o pólo norte e o pólo sul.

— Perfeitissimamente! confirmou o professor batendo com o pé no estrado e esfregando as mãos satisfeito. — Dois, minhas senhoras, disse mostrando dois dedos abertos, em ângulos; dois! O pólo norte, que é o extremo norte da linha imaginária que passa pelo centro da Terra, e o pólo sul, isto é, a outra extremidade diametralmente oposta; eis aqui está! Está ouvindo, D. Sofia? Está ouvindo D. Maria do Carmo? São dois os pólos da Terra!

(continua...)

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