Por Aluísio Azevedo (1880)
— Que é feito de ti, minha ventura?... Coração que por mim palpitaste teu primeiro amor; lábios que me falastes com a primeira mocidade; olhos que me seguistes com o primeiro cuidado! aonde fugistes vós?!... — Sorrir! Como te deixaste esmagar pelas ruínas? Lágrimas! Como vos beberam, as línguas do incêndio? — Crença, foge! Coração, cala-te! E o teu? O teu coração, minha Rosalina? Estará em ruínas como o teu berço, ou brilhará porventura mais feliz e mais virtuoso, ao clarão tranqüilo e honesto do lar e da fortuna?! Se assim não for, se te não prendeste a uma sorte invencível, volve! que de muito te aguardo impaciente; se não te esqueceu a nossa passada ventura, pensa em mim, que to retribuirei com amor de escravo; e se eu morrer, esquecido e abandonado de todos, sem que aos meus olhos seja dado refletir a ternura dos teus, no momento extremo - chora meu amor, chora que Deus recolhe as lágrimas que os anjos cá da terra derramam nas sepulturas.
E assim cismava Miguel — imóvel, chumbado às ruínas da casinha branca, pasmando as quatro criancinhas, que sobre ele passeavam admiradas os seus olhares de auroras.
O artista cobriu o rosto com as palmas das mãos e rompeu a chorar soluçadamente.
CAPÍTULO X
O pequenos continuavam aterrados sem se animarem a proferir palavra, até que o mais velho deles, Beppo, aproximando-se de Miguel, abraçou-o pela cintura, dizendo em voz baixa e tímida:
— Por que está chorando, meu mestre?
Para as crianças, corações lógicos, onde não medrou ainda desconfiança, nem experiência - chorar é sinônimo de - sofrer. O menino imediato a Beppo imitou o irmão; ente foi imitado pelo menor e finalmente pelo pequenino, que se contentou em dizer, terna e familiarmente:
— Não chores!...
Puxado pelo fio de ouro destas palavras, Miguel voltou a si e sentou-se comovido num pedaço de parede, cobrindo de beijos a cabecinha loura de Jeovanito.
A gente, não sabemos por que, depois de muito chorar e lastimar-se, sente apetite de beijar e abraçar alguém; queremos crer é na adversidade que se fortalecem mais os corações, e se corroboram os afetos – ligam-se tão bem as lágrimas e o amor e formam tão imperecível betume, que vencem resistir às borrascas destruidoras da vida e aos gelos mortíferos da ausência e da idade. De tal sorte, que Miguel daquele momento sentiu-se amar ainda mais os discípulos; e, como o amor é sempre uma luz, a claridade chegou-lhe ao gesto volatilizada num sorriso de alegria. As quatro crianças entravam-lhe com alvoroço pelo coração, como um bando de passarinhos alegres num templo abandonado e sombrio.
— Meu mestre! disse Beppo, passando o braço pelo ombro do artista – porque razão você desde que chegou a este montão de pedras está triste e chorando?
Francino, o imediato àquele, atalhou, sem dar a Miguel tempo de responder:
— Ora essa! É porque aqui morreu alguém!
À palavra — morreu — Jeovanito voltou-se rapidamente e disse, arregalando muito os olhos, belos, como são sempre os olhos de uma criança:
— Morreu? de que foi que ele morreu?...
— Não sei... disse muito naturalmente Angelino, metendo as mãozinhas gordas nas algibeiras dos calções, com certo ar de autoridade.
Nisto, Jeovanito, que se tinha afastado um pouco dos irmãos, voltou-se aterrado, e apontando para o sul com o seu dedinho cor-de-rosa, exclamava, contente por chamar a atenção de todos:
— Olha! olha! um velho! E batia palmas alegremente assustado.
Efetivamente, um velho alto e curvado, que subia a encosta, debuxava-se de negro na derradeira claridade do horizonte.
Aquela aparição produziu um mau efeito no ânimo dos pequenos. O crepúsculo dava-lhe o jeito fantástico de uma sombra, que saía aos poucos do mar e cujos contornos se iam desvanecendo no azul amortecido do céu.
Silenciosamente, caminhava o vulto para eles e, à proporção que o fazia, os meninos conchegavam-se mais a Miguel.
— É o misterioso habitante da choupana, calculou o professor, e não se enganara.
Este homem, digamo-lo de passagem, era um antigo pescador, conhecido em Lipari pelo cognome de — Sombra da Noite. Tinham-no por milagreiro e na ilha atribuíam-lhe toda a casta de feitiçarias e malefícios, que soe imaginar a ignorância do povo. Em bom tempo fora companheiro de trabalho e amigo de Maffei, a quem, por amizade e talvez mais acertadamente por interesse, arranjara os meios de transportar-se em segredo para Nápoles, na mesma noite do incêndio da casinha branca. Esta boa ação rendeu-lhe em recompensa o direito de ocupar enquanto vivesse o terreno de Maffei em Lipari e tirar dele, como das oliveiras, o partido que bem lhe aprouvesse.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.