Por Aluísio Azevedo (1895)
Donde vinha toda essa confiança de minha parte? donde procedia esse poderoso e casto sentimento que a César me ligava tanto, e que em nada me parecia com o amor que eu mantive por meu marido, nem com o que eu sentia por meus filhos? Não atinava então com a verdadeira causa do fenômeno e moralmente supunha-me deveras culpada. Só muito mais tarde, continuando a estudar, no meu próprio coração, o coração humano, pude compreender, quando afinal o conheci de todo, que não se tratava com aquele fato de um caso meu particular, mas de uma lei comum para a minha espécie. Essa conclusão assustou-me profundamente e veio abalar todas as minhas idéias aparelhadas a respeito da felicidade conjugal, e, se ela já não chegasse muito e muito tarde, ter-me-ia feito sem dúvida reformar o programa de vida, que eu com tanto empenho e tanto cuidado traçara para minha filha.
Do resultado dessas minhas observações, vim a perceber que, sendo a procriação um instinto, e sendo o amor um sentimento, o grande mal, ou o grande erro, do matrimônio vulgar, consistia no disparate de querer harmonizar e unir, para os mesmos fins, essas duas coisas distintas — sensualidade e amizade — tão contrárias entre si, e tão antipáticas e até perfeitamente incompatíveis.
Compreendi que a mulher — para procriar, precisa de um homem, de um varão, escolhido pelos seus sentidos; e — para amar, precisa de um amigo, de um irmão, eleito pela sua alma e pela sua inteligência. O associado do seu corpo, em caso nenhum, pode ser o associado do seu espírito, ou vice-versa.
Os irracionais também são, como nós, suscetíveis de simpatia e apego de amizade, mas nunca põem esse sentimento, que neles aliás não é tão elevado e tão perfeito como no homem, ao serviço da sua sensualidade e do seu destino procriador.
Compreendi que...
Mas não precipitemos os fatos da minha exposição. Vamos por ordem.
Como ia dizendo: Logo que me senti fraca para realizar sozinha o programa da felicidade de minha filha, recorri naturalmente à única pessoa com quem eu podia contar, o Dr. César. Escrevi-lhe, pedindo-lhe uma conferência em minha casa. Ele veio no mesmo dia.
Foi uma longa prática. Referi-lhe detalhadamente as minhas apreensões a respeito do futuro de Palmira; expus o que nesse tempo constituía o meu cabedal de observações concernentes ao casamento, e disse-lhe afinal qual era o meu plano resolvido. César ouviu-me, durante todo o tempo, em silêncio, com os olhos baixos, sem desviar um só instante a sua tenção do que eu expunha. Compreendi, pela concentração do seu rosto, que as minhas idéias e o meu projeto o interessavam e surpreendiam extremamente.
Quando acabei, ele tomou-me as mãos entre as suas, com um gesto carinhoso que lhe era habitual a sós comigo; meneou a cabeça e disse-me sorrindo que — em primeiro lugar, me fazia os seus cumprimentos pela lucidez de coração e de inteligência que eu acabava de patentear; depois, já em ar sério, falou da minha ilimitada dedicação materna, e declarou, ao terminar, sorrindo de novo, que, posto não acreditasse na eficácia do meu plano, pois que em absoluto não acreditava na felicidade, punha-se desde logo à minha disposição e pronto a entrar em campanha, na qualidade de meu ajudante-de-ordens.
Rejubilei de contente. Agradeci-lhe com um abraço sincero. Dispondo de semelhante ajudante-de-ordens, tinha certeza da vitória! César, amoroso e dedicado como sempre fora para comigo, havia de tomar a peito a minha causa e destruiria, com o seu valor de homem, os obstáculos que eu não pudesse quebrar com as minhas mãos de mulher.
— Os seus serviços, meu amigo, disse-lhe eu, vão ser desde logo necessários para uma prévia inspeção. Inspeção rigorosa, na pessoa de quem se propuser para meu genro. Só consentirei que se case com Palmira um rapaz perfeito, em plena normalidade de saúde.
Está claro!
— A menor lesão, o menor vício de organismo ou de sangue, a menor deformação física, é o bastante para pô-lo fora de combate. Não lhe parece?
— Decerto; e desde já respondo por mim, como médico consciencioso... disse o meu bom amigo. Mal apareça o homem, arranje, Olímpia, um meio de pô-lo em contacto comigo, e eu me encarregarei do resto. Desde que eu declare: “Este serve! — Este é perfeito — Este está conforme!” pode você aceitá-lo de olhos fechados, porque não deixarei passar gato por lebre!
Ele ficou para jantar conosco, e toda essa tarde meu coração cantou vitorioso, como se efetivamente já tivesse segura a felicidade de Palmira.
CAPÍTULO XI
Mas o homem põe, e Deus dispõe; um ano decorreu sem que eu descobrisse, para minha filha, um oficial de marinha que lhe conviesse. Ela acabava de fazer dezenove anos e era um mimo de graça e de inocência; amava-me extremamente, e jurava que me faria todas as vontades — só para me ver feliz.
Coitada! — Ver-me feliz!... a mim! Como se no mundo houvesse para mim, outra felicidade que não fosse a dela própria.
Durante todo esse ano dei festas em minha casa; comecei a receber, às quartas-feiras, todas as semanas. Como sabiam por aí que éramos ricas, não faltavam pretendentes à mão de minha filha; e o bom acolhimento que dispensei logo à farda de marinha encheu-me as salas de velhos e jovens oficiais dessa milícia, com tamanha profusão, que cheguei a recear ter inutilizado o gênero, barateando-o aos olhos de Palmira.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.