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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

E, entre o tumulto d'estes pensamentos, de repente achou-se na travessa da Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, através das cortinas, transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado - a janella do gabinete estreito onde ella se vestia, a varanda do quarto d'ella com os vasos de chrysantemos.

E pouco a pouco aquella fachada muda d'onde apenas sahia, a um canto, uma claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente penetrando de inquietação e desconfiança. Era uma medo d'essa penumbra molle que sentia lá dentro, toda cheia de

calor e do perfume em que havia jasmim. Não entrou; seguiu devagar pelo passeio fronteiro, pensando em certos detalhes da casa – o sofá largo e profundo com almofadas de sêda, as rendas do toucador, o cortinado branco da cama d'ella... Depois parou diante da

larga barra de claridade que sahia do portão do Gremio; e foi para lá, machinalmente attrahido pela simplicidade e segurança d'aquella entrada, lageada de pedra, com grossos bicos de gaz, sem penumbras e sem perfumes.

Na sala, em baixo, ficou percorrendo sem os comprehender, os telegrammas soltos sobre a mesa. Um criado passou, elle pediu cognac. Telles da Gama, que vinha de dentro assobiando, com as mãos nos bolsos do paletot, deteve-se um momento para lhe perguntar se ia na terça-feira aos Gouvarinhos.

- Talvez, murmurou Carlos.

- Então venha!... Eu ando a arrebanhar gente... São os annos do Charlie, de mais a mais. Cae lá o peso do mundo, e ha ceia!...

O criado entrou com a bandeja - e Carlos, de pé junto da mesa, remexendo o assucar no copo, recordava, sem saber porque, aquella tarde em que a condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia o sofá onde ella cahira com um rumor de sêdas amarrotadas... Como tudo isto era já vago e remoto! Apenas acabou o cognac shiu. Agora, caminhando rente das casas, não via aquella fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo nos vidros. O portão ficára cerrado, o gaz ardia no patamar. E subiu, sentindo mais pela escada de pedra as pancadas do coração que o pousar dos seus passos. Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um pouco cansada, se fôra encostar sobre a roupa; - e a sala, com effeito, parecia abandonada por essa noite, com as serpentinas apagadas, o bordado ocioso e enrolado no seu cesto, os livros n'um frio arranjo orlando a mesa onde o candieiro espalhava uma luz tenue sob o abat-jour de renda amarella.

Carlos tirara as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietação ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braços abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: «Lá vem a cabrita!... »

Mas então, quando a tinha assim suspensa, batendo os pésinhos - atravessou-o a idéa de que aquella criança era sua sobrinha e tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir - assombrado para ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde corria o seu sangue...

- Que estás tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e serrindo, com as mãosinhas cruzadas atraz das saias que tufavam.

Elle não sabia, parecia-lhe outra Rosa: e á sua perturbação misturava-se uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame MacGren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem balouçava na Toca sob as acacias em flôr. Ella no emtanto sorria mais, com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues, vendo-o assim tão grave e tão mudo, pensando que elle ia brincar, fazer «voz de Carlos Magno». Tinha o mesmo sorriso da mãi, com a mesma covinha no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graça de Maria, todo o encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braços, tão violentamente, com beijos tão bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou, assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de não ter sido casto... Depois, muito sério:

- Onde está a mamã?

Rosa coçava o braço, com a testasinha franzida:

- Apre!... Magoaste-me.

Carlos passou-lhe pelos cabellos a mão que ainda tremia.

- Vá, não sejas piegas, a mamã não gosta. Onde está ella?

A pequena, aplacada, já contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos de Carlos para que elle saltasse tambem...

- A mamã foi deitar-se... Diz que está muito cansada, depois chama-me a mim preguiçosa... Vá, salta tambem. Não sejas mono!...

N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou:

- Mademoiselle!...

Rosa pôz o dedinho na bôca cheia de riso:

- Dize-lhe que não estou aqui! A vêr... Para a fazer zangar!... Dize!

Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida por traz de Carlos, na pontinha dos pés, fazendo-se pequenina. Teve um sorriso benevolo, murmurou «good night, sir». Depois lembrou que eram quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia recolher-se. Então Carlos puxou brandamente pelo braço de Rosa, acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah.

(continua...)

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