Por Visconde de Taunay (1871)
Um homem, no entanto, avidamente acompanhara tais conversas: era o nosso infeliz guia. Absorto, sombrio, sem uma só palavra para quem quer que fosse, desde que retrogradávamos reconcentrava-se na contemplação dos sofrimentos da família, reduzida ao cativeiro, exposta aos tormentos, já os havendo sofrido talvez: mulher, filhos, parentes, amigos. Assumira, a seu ver, a marcha para a frente, o aspecto de um compromisso que, uma vez tomado sob a invocação do patriotismo e da humanidade, era definitivo, embora a todos nós custasse a vida! Agora, que se falava de penetrar novamente no Paraguai, tornara-se outra vez entusiástico e expansivo. Do comandante, abroquelado no corria aos oficiais e destes aos soldados, garantindo se encarregava de abastecer o corpo de exército.
Se nos entregássemos á sua experiência, haveria conduzir-nos por caminhos que só ele conhecia, a seguro onde o esperaríamos. Enganavam-se os que ditavam na exaustão de recursos de sua fazenda. Ainda possuía reservas e tudo sacrificaria, como já tudo ficara.
Nós lhe admirávamos a alma generosa: mas eram-lhe evidentes as ilusões e exagerações. Destruindo-se por si mesmas contribuíam para nos abrir os olhos à verdade. Se ainda algumas dúvidas nos restavam, veríamos demonstrada a nossa absoluta impotência pelas noticias trazidas por um dos nossos oficiais, o tenente Vitor Batista, que, da colônia de Miranda, escoltado por doze soldados, viera ao nosso encontro. Não se avistara com os paraguaios; mas quanto ao objeto de nossa principal preocupação, ou por assim dizer, o único, contou-nos que nenhuma remessa de munições partira de Nioac. Um bom número de carretas do comércio, carregadas de mercadorias, havia realmente atingido a Machorra. Ainda estavam algumas paradas á nossa espera; mas as outras, a maioria, ao saber de nossas refregas com o inimigo, tinham tornado atrás, certas de que não nos encontrariam mais.
A Machorra, como já dissemos, está situada a dez quilômetros de Bela Vista, em território brasileiro; e podíamos supor que os inimigos, preocupados conosco, e com o que poderíamos fazer, ainda se não haviam dirigido para ali. Interromper a nossa marcha, para atrasar a deles, ficar além do Apa e fazer, entretanto, com que os mercadores tomassem o mais depressa possível a estrada de Nioac, tais foram, pelo que pudemos julgar, as idéias do Coronel. Por elas se apaixonou. Considerava desonra ver apreender tão rica presa pelo inimigo, que indo sempre á nossa frente, haveria de atingi-la antes de nós e não deixaria de arvora-la em troféu. Assim, pois, ordenou aos diferentes corpos que só a 11, dois dias mais tarde, levantassem acampamento.
Debalde apressaram-se vários oficiais em lhe fazer ver que, para a execução de uma retirada, já comprometida pela escassez de víveres que nos ameaçava, havia a maior urgência em atravessar o Apa, antes que os inimigos tivessem conseguido torná-lo para nós intransponível; a não ser mediante sacrifícios de todo o gênero, e sobretudo o de uma delonga que infalivelmente nos perderia.
Mostrou-se irredutível, abroquelando-se numa única alegação: exigia a dignidade do corpo de exército a demonstração de que a retirada se efetuava tanto sem precipitação como sem temor.
Restava-lhe mandar levar à Machorra a ordem para que os nossos mascates regressassem a Nioac; e foi então que se lhe transmutou a funesta obstinação em verdadeira idéia fixa. Chamando o tenente Vítor Batista, o portador das noticias recentes, dele indagou qual seria o melhor meio de entrar em comunicação com o comboio e quem poderia executar a comissão. Depois, como este valente oficial não hesitasse em oferecer-se, aceitou-lhe a proposta, sem nada querer ouvir das observações que me foram feitas acerca dos inconvenientes de se arriscar assim a perder um oficial, de patente já distinta, tão dedicado, e cuja perda podia trazer o desânimo à coluna. Continuou inabalável, a tudo respondendo com o dizer que o filho de Lopes lhe serviria de guia, tomando atalhos que conhecia e impraticáveis à cavalaria.
Tal ordem se executou. Dois dos nossos refugiados do Paraguai, os irmãos Hipólito e Manuel Ferreira, arrastados pela confiança no filho de Lopes juntaram-se ao tenente Vitor. Partiram os quatro, deixando-nos cheios de apreensões as mais intensas.
Mal decorrera meia hora, ouvimos distintamente, ao longe, tiros de fuzil. Estremecemos, fitavam os nossos olhos o ponto onde os ausentes haviam desaparecido. Vimos, afinal, o filho de Lopes sair só, da mata do rio, correndo para nós, seminu e todo ensangüentado.
Apenas cobrou alento, contou o que se passara. Os paraguaios os haviam cercado, matando o tenente e os irmãos Ferreira. Ele próprio conseguira escapar graças a um espinhal denso onde se lançara e donde, por milagre, pudera atingir o rio.
A todos consternou este fatal acontecimento. Quanto não deve ter sofrido o infeliz coronel Camisão com o seu gênio tão acessível às angústias do arrependimento e do remorso! Dominou, contudo, a comoção: não disse palavra, e não tardou em ordenar aos engenheiros que, sobre o Apa, construíssem uma ponte para a passagem das tropas.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.