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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Amélia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ela supunha na cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Sales Pereira passava a manhã em seu escritório; partia logo depois do almoço e só voltava à hora do jantar A surpresa da moça era pois natural.

— Ah! papai! exclamara ela, voltando-se ao rumor da porta. Já veio do escritório?

— Ainda não fui, respondeu Sales Pereira sorrindo. Recebi uma carta, que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãe e... contigo, a quem o objeto mais interessa.

— A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?

— Lê, disse o negociante apresentando-lhe a carta.

Amélia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos rubores. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuxava no linho o contorno dos lindos seios.

A carta era de Horácio, que pedia ao negociante a mão da filha.

Acabando de a ler, a moça de olhos baixos e o corpo trêmulo, parecia vendarse com sua inocência para subtrair-se ao olhar terno e curioso de seu pai. Nesse momento ela desejava, se possível fosse, esconder-se dentro de si mesma.

— Que devo eu responder, Amélia? perguntou o negociante.

— O que papai quiser! balbuciou a menina.

— Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Se eu não aceitar a honra que nos quer fazer o Sr. Horácio de Almeida?

As pálpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos límpidos. -Papai não acha bom?

— Se ele te for indiferente, eu por mim não tenho grande empenho. É um excelente moço; tem alguma coisa de seu; mas anda em certa roda que não me agrada.

— Que roda, papai?

— De moços da moda.

— Porque é solteiro.

— Então o que decides?

— Desde que papai e mamãe desejam, eu...

— Nós não desejamos coisa alguma; queremos saber tua vontade.

Amélia emudeceu.

— Bem, já vejo que não é de teu gosto. Vou responder ao homem com um não.

Sales Pereira encaminhou-se para a porta.

— Mas, papai!... murmurou a moça.

— Que temos?... Fala, que já me demorei muito. Quase meio-dia!

— Vai responder já?

— À.

— Deixe para amanhã.

— Nada; são coisas que se decidem logo.

— O que vai responder então?

— Que não.

— Mas eu não disse isto!

— Tu nada disseste.

— Pois se eu não gostasse, diria logo.

— Ah! neste caso, gostou?

Amélia sorrindo acenou com a cabeça.

— Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas a Horácio?

A moça fez um supremo esforço:

— Amo! disse ela escondendo o rosto no seio do pai.

O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.

— Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste coraçãozinho! E eu que pensava que ele só queria bem a mim?

— Oh! papai!

— Bem, bem, não tenho ciúmes! Vai consolar tua mãe, que eu vou responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.

O negociante voltou ao gabinete, e Amélia dirigiu-se ao interior. Sua mãe estava no quarto, com os olhos ainda úmidos de lágrimas. Quem não conhece essas lágrimas abençoadas, que a mãe derrama pelos filhos, e que são bálsamos para as aflições e orvalhos para as flores da ventura?

D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receosa de que lha arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade próxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.

De repente Amélia sobressaltou-se com uma idéia que lhe acudiu; e deixando a mãe, correu ao gabinete do negociante.

Achou-o sentado à escrivaninha, passando por cima da carta que terminara, um rolete de mata-borrão.

O pai sorriu vendo entrar a filha.

— Curiosa!

— Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza à poltrona.

— Vê se está de teu gosto, disse o Sales cingindo-lhe a cintura com o braço.

Amélia leu a carta rapidamente; ela já sabia de antemão que faltava alguma coisa.

— Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.

— Está muito boa, papai. Só acho uma coisa.

— O quê?

O negociante sofreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra-prima com aquela carta, escrita em seu mais belo estilo comercial, mas recheada de alguns rasgos sentimentais.

— Não acha, papai, que ele ficará todo cheio de si, obtendo logo, assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder no mesmo dia... mostra muita vontade demais.

— Que mal há nisso? Para que deixá-lo na dúvida, quando podes torná-lo feliz desde já?

— Papai pensa que ele duvida?

— Ah! Já sabe então! Muito bem!

—  Eu não lhe disse nada, papai.

—  Então como sabe ele? Adivinhou?

(continua...)

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