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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Amanhã vossa mercê procurará o juiz dos órfãos que, sem dúvida, tomará todas as suas resoluções e principalmente aquela que fará distanciar de seus filhos a noiva do dr. André.

Firmino E à tarde levarei Corina e a tia Suzana para a chácara...

Peregr.

E Silvia e Roberto as acompanharão, ficando lá a seu serviço e em sua guarda...

Firmino E tu?...

Peregr.

A chácara é solitária, meu pai; as noites de junho são longas, e as que estão correndo agora, escuras e propícias aos ladrões e aos amantes: Silvia e Roberto me estão dedicados; o seu feitor é criatura minha, e tarde, bem tarde, vossa mercê saberá que um filho ingrato lhe roubou a pupila.

Firmino Peregrino!

Peregr.

Tenho tudo pronto, meu pai: o clorofórmio para o lenço que sufocará os gritos de Corina, e a tornará por minutos... insensível... a carruagem para fugir; o abrigo ermo e seguro para ocultarme por alguns dias...

Firmino Mas se ela morresse... se involuntariamente a matasses com a perigosa aplicação de clorofórmio...

Peregr.

Que receio inconseqüente!... Não vê que eu tenho necessidade de Corina viva?... Sei o que vou fazer.

Firmino Tu nem calculas com a desesperada resistência da vítima!...

Peregr.

Meu pai... amanhã à noite eu me despedirei, ressentido de vossa mercê, recusando o seu desamor e revoltando-me contra a sua autoridade: naturalmente o sr. Teófilo estará aqui, e será testemunha da minha desobediência e ingratidão: um filho tão mau... um filho que desacata seu pai...

Firmino Que queres dizer?...

Peregr.

Digo que tudo está calculado por mim, e que vossa mercê deve poupar-me às explicações. Eu vou ser opressor... algoz durante alguns dias para ser feliz, rico e esposo estremecido toda minha vida.

Firmino Oh, meu filho... deveras que planejamos um crime... sim... o mundo, porém, aí está erigindo altares ao ouro... a sociedade aí está honrando, purificando a riqueza ainda mesmo provinda de fontes turvas e lodosas... e escarnecendo da pobreza ou pelo menos, aviltando-a como o desvalimento do homem de honra que é pobre... Peregrino, o teu casamento lavará a nódoa... vou... não hesito mais... vai... mas lembra-te bem: nestes casos extremos há só um crime que é imperdoável...

Peregr.

Qual?

Firmino O malograr-se o atentado.

Peregr.

Posso contar com meu pai?...

Firmino Farei tudo por ti.

Peregr.

Corina será sua nora. (beija a mão de Firmino)

Firmino Julgas que desde hoje devo mostrar-me favorável ao dr. André?

Peregr.

Não, meu pai; só amanhã: é preciso não dar tempo nem aos assomos da esperança. (Silvia chega à frente e faz-se sentar, tossindo) Ah, chega minha madrasta: sairei sem que ela me veja. (vai-se)

Firmino Silvia! (aparece Silvia) A senhora já entrou?...

Silvia Entraram todos pelo jardim, onde passeiam.

Firmino Todos quem?

Silvia A senhora e seus filhos e o sr. Teófilo.

Firmino Ah!... Teófilo... vou encontrá-lo...

Cena 2ª

Silvia; Suzana e Corina

Suzana Já chegaram?... eu ouvi a voz de Júlia...

Silvia Estão no jardim.

Suzana Queres descer ao jardim, Corina?...

Corina Para que, tia Suzana?... Esperemo-los aqui...

Cena 3ª

Suzana: Corina: Teodora: Silvia que se retira

Teodora Tia Suzana! Adeus Corina: (tirando o chapéu e a manta) você guarda [sic] isto (a Silvia que vaise), passei pelo seu quarto, tia Suzana... (ansiosa)

Suzana Saímos dele agora mesmo...

Teod.

Escutam: tia Suzana, eu imponho segredo: se falar, me fará mal: Corina será discreta: é de seu interesse.

Corina Meu Deus! Teod. Resistam, oponham-se à partida para a chácara do Andaraí... não vão... resistam...

Suzana

Por que?...

Teod.

Peregrino, o meu nobre enteado preparou um plano para o rapto de Corina... e este desterro para a chácara isolada... deserta...

Corina (abraçando-se com Suzana) Oh!

Suzana E Firmino?

Teod.

É pai e ambicioso, como sou mãe, e fui má: não tenho o direito de acusá-lo... perdão para ambos!... e agora...

Suzana Agora é o crime que provocou a vingança do senhor!...

Teod.

(continua...)

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