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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Maurício (Avançando um passo) — Protegido pela máscara e pelo indulto da hospitalidade, acabasse de injuriar a todos nós; perdeste portanto os teus direitos, e me impuseste o dever de arrancar-te essa máscara, e de mostrar o teu rosto aos olhos...(Quer arrancar-lhe a máscara e Anastácio suspende-lhe o braço).

Anastácio (A Maurício) — Amanhã, ao meio-dia, Maurício!...

Maurício — Oh!...(Deixa cair o braço)

Hortênsia — Este homem é um atrevido, e como tal deve ser expulso da nossa casa...(Anastácio leva Maurício para um lado).

Anastácio (A Maurício) — Nós vamos entrar de novo na sala do baile, e tua mulher aceitará sem dúvida o meu braço...

Maurício (Aterrado) — Senhores...é um amigo...zombou de todos nós...mas não houve ofensa...é um amigo...tornemos ao baile...

Fabiana — Como?...depois dos insultos que nos dirigiu...

Maurício — É um amigo...já disse...respondo por ele...e a prova é, que Hortênsia vai tomar-lhe o braço...

Hortênsia — Eu?...nunca!...

Maurício (À Hortênsia tremendo) — Toma-lhe o braço, Hortênsia!...

Hortênsia (Tomando o braço de Anastácio) — Meu Deus!... (Vão-se retirando).

Frederico (Dando o braço a Fabiana) — Hora e meia!...

Fabiana — Vamos. (Vão-se)

CENA XIII

Filipa e logo Henrique.

Filipa (Olhando em torno) — Hora e meia!...e alguém me falta...

Henrique (Aparecendo) — Hora e meia!...Estou pronto.

Filipa — O momento terrível se aproxima, um leve descuido poderia ser-nos fatal; cuidado!

Henrique — Eu velo.

Filipa (À parte, apertando-lhe a mão) — E eu triunfo! (Vão-se)

CENA XIV

Reinaldo e Lúcia.

Lúcia — Mas, meu paizinho, isto é intolerável! É revoltante!...

Reinaldo — Que queres, minha filha?...o primeiro dever do soldado é a obediência, e principalmente agora que, segundo corre, estamos em vésperas de promoção. O negócio é necessariamente muito grave; a carta é do oficial de gabinete do ministro, e tão atrapalhado escreveu que quase lhe desconheci a letra...

Lúcia — Ah, meu paizinho, tomara eu que caia este ministério.

Reinaldo — Olha, ele está por teias de aranhas...e ao primeiro vento, vai-se como um passarinho; mas enquanto se demora no poleiro, é preciso não faltar-lhe com as continências devidas. Às duas horas devo estar em casa do ministro...tenho apenas tempo de deixar-te em casa e de ir apresentar-me à Sua Excelência...Há negócio grave...há negócios grave...anda...vamos...

Lúcia — Ai! Cá para mim não há ministro que valha um baile.

Reinaldo (Saindo com a filha) — Não digo o contrário...porém que remédio!

Vamos...e...adeus, minhas contradanças!...

Lúcia — Adeus, minhas boas valsas!...(Vão-se)

CENA XV

Frederico, só — De máscara e com uma capa no braço.

Lá se foi o coronel, e ao menos durante o resto da noite carregará com a responsabilidade do rapto de Leonina. É chegada a hora; cumpre abrir o portão para facilitar a retirada. (Faz o que diz) Oh, que doce peso vou carregar sobre os meus ombros! Que moça encantadora,q eu noite de embriaguez e que bela herança a esperar! Se Dona Fabiana se lembrasse de dar a comer uma boa dose de pastilhas ao tio e padrinho da minha noiva!...Mas... é tempo de esconder-me...É célebre! Parece-me que a despeito de todo este meu entusiasmo, estou começando a recear as conseqüências deste passo...que puerilidade...avante!...vou ocultar-me entre jasmins para roubar uma rosa. (Oculta-se por trás do caramanchão)

CENA XVI Frederico, oculto; Fabiana e Leonina.

Fabiana — Venha...o ar da noite e o aroma das flores hão de fazer-lhe bem.

Leonina — A cabeça pesa-me horrivelmente...como que os olhos se vão fechando...

Fabiana — É um incômodo passageiro; havia de ser a emoção que lhe causou o pedido do casamento...

Leonina — Não...não...mas é impossível resistir ao sono que sinto; eu vou retirarme para o meu quarto..

Fabiana — Não faça tal, o calor aumentaria este pequeno incômodo. Olhe, descanse antes ao pé de mim, no banco do caramanchão.

Leonina — É melhor que eu me vá deitar...não posso...quero dormir.

Fabiana (Puxando-a) — Venha...eu me sentarei a seu lado.

Leonina (Cedendo) — Oh! é muito! É demais!...

Fabiana — Venha!...(Leva-a para o banco do caramanchão; Leonina reclina-se sobre Fabiana)

Leonina — Pesam-me os olhos...ah...se eu dormir...acorde-me...

(continua...)

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