Por Eça de Queirós (1925)
Mas os Ciúmes do Céu são bem conhecidos. Não há em todo Lamartine um canto mais desolado e mais filosófico. Elvira queixa-se que os olhos do poeta se elevem constantemente, explorando os céus, indo procurar, lá longe, o ideal, quando ele está ali perto, num olhar do ser que o adora. Mas o poeta explica a sua alma: encontra nas grandes alturas, a que se eleva, um gozo divino que nunca encontraria na terra. E Elvira, toda zelosa de que haja no Universo alguma coisa que o poeta lhe prefira, mesmo o Céu, mesmo a divina face de Deus, promete fazer-lhe conhecer um gozo maior que lhe fará esquecer o mistério insondável que o atrai: «Sou tua!» exclama, unindo os seus lábios aos dele num beijo infindável. E o poeta, recordando esse momento, em que a sua alma conheceu o êxtase supremo, exclama, torturado pela saudade:
Vento que murmuras, onde estão os ecos,
O timbre divino dessa meiga voz?
Onde estão, rochedos, os ais magoados,
Tristes, que soltámos nessa noite sós?
Sobre a areia branca reclinaste o corpo,
Eu prendi-te a cinta na mão palpitante...
E um beijo infinito desfez-se na aragem,
Rosa desfolhada na brisa distante!
Mas nesse momento, erguendo casualmente os olhos para a porta da sala, o nosso Alípio viu com espanto o Dr. Vaz Correia, em bicos de pés, que lhe fazia com os olhos, com os beiços, acenos impacientes que pareciam significar: Não! não! Cuidado! Então?...
Mas D. Luísa bateu uma nota grave e Alípio, atarantado, começou a seguinte estrofe:
Que divinos beijos, que soluços brandos,
Que momento doce, que ideal anseio...
A Lua de prata, no azul suspensa,
Inundava a curva branca do teu seio.
Seio d'alabastro, cor d'espuma,
Luminoso, quente, palpitante – e meu!
E que me faria esquecer o mundo,
Renegar a crença, proclamar-me ateu!
Vaz Correia então não se conteve: lançou no silêncio pesado a sua grossa tosse catarrosa; e quando Alípio, naturalmente, ergueu a vista para ele, como de resto todos os presentes, viu-o mudo, hirto, apopléctico, cravando-lhe um olhar chamejante. Mas, levado pelo ritmo da música, Alípio, enfiado, teve de continuar:
Não mais os meus olhos quero erguer a Deus...
A voz seca e dura de D. Laura cortou a recitação:
– Virgínia! Vá lá para dentro! Vá lá para dentro, menina, que isto não é para senhoras!
E Alípio, aterrado, reconheceu que tinha provocado um escândalo.
Com a sua penetração maravilhosa, compreendeu logo que só se poderia salvar se conseguisse improvisar algumas estrofes, em que o poeta, findo o seu reprovável delírio, repelisse a sedução da carne representada por Elvira, e voltasse a orgulhosa fronte para o Céu, vivo espelho da alma. Isto daria decerto uma formosa intenção moral ao canto lúbrico... Mas Alípio não era poeta! Como ele me disse depois, teria dado, naquele momento, todos os seus trabalhos, a sua soberba dissertação académica, os seus maravilhosos artigos políticos, para ter a potência imaginativa de um Hugo ou de um Garrett, e improvisar um fecho profundamente religioso, que imediatamente lhe conciliasse aquelas honradas senhoras! Mas, na impossibilidade de o fazer, embrulhou versos, saltou estrofes, e apressado, concluiu:
Não te esqueças nunca desse instante, Elvira,
E o que me dizias, a tremer-te a voz,
E o luar de prata, que inundava a praia
Onde nos amámos, uma noite, sós.
Calou-se. Vozes discretas disseram, aqui e além:
– Muito bonito! muito bem!
E coberto de suores frios, Alípio enfiava para a saleta, quando Vaz Correia lhe travou do braço, rosnando com uma voz apopléctica:
– Fê-la bonita! Limpe a mão à parede! Está tudo perdido... Fez escândalo grosso!.
– Ó senhor doutor, mas...
– Tudo pela água abaixo! Um homem de bom-senso, um premiado! Pôs-se a recitar dessas indecências! A mãe está como uma fera! Tudo perdido!... escute V. Exª...
– Não escuto nada. Lavo daí as minhas mãos. O senhor imagina que se encontra todos os dias uma rapariga bem-educada, e bonita, com doze mil cruzados de renda?
– Quem? Que quer V. Exª dizer?
– Quero dizer que o trouxe aqui para agradar à pequena, à mãe, ao pai, ao padre
Augusto, às Vitorinos – e que o senhor, como um simplório, escandaliza as Vitorinos, o padre Augusto, o pai, a mãe e a pequena! Limpe a mão à parede, e... chafurde no atoleiro!
– V. Exª é severo...
– Severo? O senhor chama-me severo? O senhor acha de bom-senso, pôr-se no meio de uma sala a dizer obscenidades?
– É uma poesia...
– É uma obscenidade!
– Eu não sabia... E uma poesia conhecida... Recita-se em toda a parte.
– Isto aqui não é toda a parte. Isto aqui é a casa da D. Laura e do padre Augusto.
Aqui recita-se o Agnus Dei e a ladainha... E em dias de festa, em dia de anos, por excepção, a pequena, por galantaria, recita a Lua de Londres!...
– Vou pedir desculpa à Srª D. Laura – disse Alípio com decisão.
– Lavo daí as minhas mãos – respondeu o doutor friamente.
E Alípio, imediatamente, com aquela enérgica decisão que mais tarde, nas crises políticas, tantas vezes lhe deu o triunfo, dirigiu-se para o sofá de damasco vermelho, onde D. Laura, erecta, pálida, o nariz mais longo, o recebeu de olhos chamejantes.
– Minha senhora, eu venho dar uma explicação a V. Exª.
– E uma indecência, senhor doutor... vir a uma família...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.