Por Eça de Queirós (1870)
Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estaslongas páginas, que decerto estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem di ferente daquela em que ambos nos achamos hoje.Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silêncio que me envolvia, cortado apenas pelo frémito da minha pena no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados falando baixo no aposento que atravessei antes de entrar naquele emque estou. Tinha terminado o parágrafo anterior a este, quan do o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Aproximei-me da porta e colei o ouvido aoburaco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam às escuras, é provável que haja um corre dor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquele em que eu me acho e o quarto próximo em que eles falam. Não podia percebero que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando umlevantou mais a voz e eu ouvi distintamente estas palavras:
— Mas as notas de banco, 2300 libras em notas! Não as trazia ele? — Sei que as trazia — dizia outra voz.- É atroz, então!
Estas palavras, únicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular!É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas de amor, como eu primeiro supus. Das hipóteses do prussiano é absolutamente necessário aceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçónica.Assim o provam convincentemente os ruídos que se ouviam na morada contígua. Num retiro de paixões temas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que tilintanas mesas. A referência dos vultos misteriosos feita pela vizinhança permite a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mes mo aspecto do boudoir em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia. As palavras que há pouco ouvi sugerem-me sobre estas supo sições a mais tenebrosa suspeita.
O desgraçado que jaz aí dentro podia ter sido vítima de um ho micídio, premeditadocom o intuito de roubar-lhe a quantia que ele trazia consigo.
Ocorre uma contradição: na sugerida hipótese para que foram buscar um médico? Explicamno as palavras que ouvi. Os crimi nosos, que tinham propinado ópio à sua vítimacom o intuito de a roubarem, encontram iludido este projecto com o desaparecimen to das notas que lhe supunham na algibeira. Nesta conjuntura sobrevém-lhes, naturalmente, a ideiade tentar um recurso extremo: procurar um médico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o ópio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confian ça na sua inocência, afastar de si a presunção do crime, e criar as dificuldades de um mistério! Épossível que eu não atinja exactamente a verdade do que se passou. O indubitável, porém, é que o desaparecimento já constatado da soma que o assassinado trazia consigo não podeadunar-se dentro desta casa com a probidade e com a honra.
Depois disto, é quase escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu vizinho prussiano é um homem um tanto fantástico, mas parece-me sincero e honrado. Voufechar esta car ta, sobrescritá-la e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facil mente meio de a passar para o quarto dele. Se conseguir arrombar completamente, sem que mepressintam, o tapamento que serve de fundo ao armário, passarei eu em vez de expedir a carta. No ca so contrário, apenas se abrir aquela porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bemque em sua consciência delibera passar por cima de meia dúzia de miseráveis.
Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos amanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim,escreve a Frede rico Friedlann, posta restante, Lisboa. Ele te procurará no lugar que lhe indicares e te dirá onde estou. — Adeus. — F...
NOTA — Juntamente com a carta publicada ontem achavam-se as seguintes folhas de papel escritas pela mesma letra das cartas do médico, anteriormente publicadas nesta folha:
F... não apareceu. No mesmo dia, dois dias e três noites depois de haver recebido aextensa carta que ele me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos os meios ter notícias dele. Foram inúteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio esoube que ainda ali se acha va a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprazava uma entrevista.
Estou vivamente inquieto, sobressaltado, cuidadoso.F... é um homem arrebatado, irascível, pundonoroso até o de lírio. Receio do seu carácter e da violência das suas determinações. uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal. Apresso-me, porém, a declarar-lhe, senhor redactor, que dis cordo completamente da opinião dele quanto à qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casaonde encontrámos o cadáver.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.