Por Eça de Queirós (1925)
Quando voltava às quatro horas, os restos deste triste almoço ainda estavam sobre a mesa, com o molho dos bifes seco no prato, um resto de chá no fundo da chávena, — tudo sujo e triste sob o vôo das moscas. Pelo chão ficavam migalhas de semanas. Todos os dias se quebrava alguma coisa. E ao fim do mês eram contas enormes, um desperdício, um excesso absurdo de gastos. Já duas vezes encontrara homens na escada, ou visitas para as criadas. A sua roupa suja arrastava pelos cantos – e, quando ele se enfurecia, entrava na cozinha como uma bomba, dava berros, as duas criaturas não respondiam, fingiam uma compunção mais odiosa ainda do que uma resposta insolente. Baixavam a cabeça, davam com respeito uma desculpa absurda, depois ficavam dentro rindo, e bebendo copinhos de vinho.
Mas o pior eram as noites solitárias. Fora sempre um homem muito caseiro, que às nove recolhia, calçava os seus chinelos e gozava o seu interior. Ordinariamente, na sala, Ludovina tocava um bocado de piano; ele mesmo ia acender as luzes, com a devoção de quem prepara um altar, porque adorava a música; e vinha acabar o seu charuto, numa poltrona, ouvindo-a tocar, vendo a massa negra do seu cabelo que lhe pendia nas costas, numa graça de desalinho e de abandono. E havia certas músicas que lhe davam a sensação de Ter o coração acariciado pôr alguma coisa de aveludado e doce, que o fazia desfalecer: sobretudo uma certa valsa Souvenir d’Andalousie... Há quanto tempo ele a não ouvia.
Enquanto durou o verão, todas as tardes dava o seu passeio: mas o espetáculo mesmo das ruas trazia-lhe à memória a sua felicidade perdida. Era uma varanda aberta, com uma senhora de vestido claro tomando o fresco, que lhe recordava a sua casa deserta, onde não havia um rumor de saia; ou era ao anoitecer, uma janela deixando sair a claridade discreta dum serão tranqüilo, e donde vinham sons de piano... Ele, fatigado, com os botins empoeirados, sentia então, dum modo agudo e doloroso, a evidência da sua solidão.
Mas as noites piores eram as que passava no Passeio Público: levava-o lá o horror de estar só; mas aquela solidão entre gente, sob árvores alumiadas a gás, vendo tanto homem levando uma mulher pelo braço, era-lhe mais dolorosa que a sua sala deserta e fria, com o seu piano fechado.
Depois foi pior quando começou o inverno. Novembro foi muito chuvoso Ele voltava do escritório, e, depois do jantar ordinário que comia à pressa, ficava, com os pés nos chinelos, aborrecendo-se e errando da sala para o quarto. Nenhuma cadeira, pôr mais confortável, lhe dava a satisfação de repouso e de bem-estar; e os seus livros queridos pareciam ter perdido subitamente todo o interesse, desde que não a sentia ao seu lado, costurando à mesma luz a que ele lia. E um pudor, um escrúpulo, uma vaga vergonha impediam-no de ir aos teatros.
Além disso uma inquietação tomava-o constantemente, desde que ela voltara da Ericeira e que a sabia ali na mesma rua, a dez minutos de caminho daquela casa onde ele sofria todas as melancolias da viuvez. Vinte vezes pôr noite, o seu pensamento fazia esse caminho, subia as escadas do Neto, penetrava na sala que ele conhecia, com a sua chaise-longue que ela se costumava sentar quando iam ver o Papá; e vinha-lhe um ciúme, um desespero pensando que a essa hora ela estaria lá sentada, com uma costura ou um livro na mão, tranqüila, sem pensar nele.
O Neto, à volta da Ericeira, viera vê-lo. E cada palavra daquele maroto fora uma punhalada. Tinham gozado muito na Ericeira – não viam ninguém, enfim, porque as circunstâncias da Ludovina não permitiam folias e pic-nics – mas tinham passado bem em família. Ludovina tomara banhos; estava forte, gorda, e nunca ele a vira com tão boa cara; tinha-se aplicado muito ao piano, e parecia resignada e de bom humor. E depois de lha pintar assim tão apetecível saíra, sem dizer a palavra pôr que Godofredo ansiava – uma simples palavra: fazer as pazes.
Porque o desejava ardentemente. Somente não queria das o primeiro passo, pôr orgulho, pôr dignidade, pôr um resto de amuo e de ciúme. Mas entendia que Neto é que devia impor essa reconciliação – e começava agora a odiá-lo, vendo que ele queria conservar a filha em casa. Percebia bem. O patife não desgostava dos trinta mil réis, que lhe vinham assim todos os meses. Pensou mesmo em lhe retirar a mesada. Um sentimento de cavalheirismo impedia-lhe de o fazer.
E o que o torturava não a ter visto ainda. Debalde passava e repassava pela casa de Neto; debalde ia aos domingos à missa, à igreja dela; debalde ia passar pela casa da modista dela, uma dona Justina no largo do Carmo, com a esperança de a ver de lá sair, ou entrar. Nunca a encontrou até dois dias antes do Natal. Estava nessa manhã, numa tabacaria ao alto do Chiado, acendendo o charuto, quando se voltou, a viu pelas costas. Ficou tão perturbado, tão trêmulo, que em lugar de correr a segui-la, a vê-la, como o seu desejo reclamava furiosamente, recolheu-se para o fundo da loja, esteve ali a hesitar, a sentir bater o coração, com o ar pálido e estúpido. De repente quis vê-la ainda uma vez, mas debalde subiu, desceu o Chiado, não a encontrou; tinha-a perdido, e foi para casa com uma saudade imensa, tendo diante dos olhos toda a noite a figura alta, vestida de preto, com uma flor amarela no chapéu.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.